PL 2847/2026: o que muda para o seu restaurante se as taxas de delivery forem limitadas a 15%

Se aprovado, o PL 2847/2026 limita em 15% a comissão que plataformas de delivery cobram dos restaurantes. Fizemos a conta do que isso significa, na prática, para o caixa do seu negócio — e comparamos com o que já foi aprovado em Nova York, Espanha e Reino Unido.

Por que a taxa importa mais no Brasil do que em outros mercados

O debate sobre regulação de delivery no Brasil tem uma variável que Europa e Estados Unidos não enfrentaram na mesma intensidade: a concentração de mercado. Com o iFood dominando entre 70% e 80% da operação nacional, o lojista brasileiro não tem, na prática, a alternativa de migrar de plataforma como estratégia de negociação. É uma dinâmica diferente da observada no Reino Unido ou na Espanha, onde Deliveroo, Just Eat, Uber Eats e plataformas locais competem com paridade maior de fatia de mercado.

Isso significa que, para o pequeno restaurante, a comissão de 27% a 30% não é um custo negociável. É um pedágio.

A Abrasel documenta esse estrangulamento desde 2021. Em sua pesquisa mais recente sobre o setor, 60% dos associados apontaram as taxas das plataformas como o principal fator de erosão de rentabilidade no canal digital — superando, inclusive, a inflação dos insumos, que dominou o noticiário no mesmo período. O setor emprega 6 milhões de pessoas diretamente no país e responde por uma das maiores taxas de fechamento entre pequenos negócios: 1 em cada 3 restaurantes fecha antes de completar 2 anos de operação, segundo o SEBRAE.

O paradoxo mais cruel está documentado: restaurantes que crescem em volume via delivery frequentemente pioram de resultado. Ao escalar pedidos na plataforma, cresce proporcionalmente o valor absoluto transferido à intermediária — sem que o lojista ganhe poder de negociação, espaço no cardápio ou visibilidade orgânica. Cresce o faturamento, cresce o repasse. A margem, em percentual, continua comprimida.

A conta na ponta do lápis: 30% vs. 15%

Para entender o que o PL 2847/2026 mudaria no dia a dia, vamos simular um restaurante-base:

  • Ticket médio por pedido: R$ 45,00
  • Volume mensal via plataforma: 400 pedidos
  • Faturamento bruto delivery/mês: R$ 18.000,00
  • Custo de insumos (35%): R$ 6.300,00
  • Custo operacional fixo proporcional: R$ 4.500,00
  • Lucro bruto antes da plataforma: R$ 7.200,00

Agora, o comparativo entre o cenário atual e o proposto pelo PL:

Indicador Cenário Atual (30%) Cenário PL (15%) Diferença
Taxa paga à plataforma/mês R$ 5.400,00 R$ 2.700,00 -R$ 2.700,00
Resultado após taxa R$ 1.800,00 R$ 4.500,00 +R$ 2.700,00
Margem sobre faturamento 10,0% 25,0% +15 p.p.
Resultado anualizado R$ 21.600,00 R$ 54.000,00 +R$ 32.400,00

Modelo simplificado para ilustração editorial. Não considera variações de impulsionamento pago, taxa de entrega repassada e impostos sobre nota fiscal.

A leitura é direta: para um restaurante pequeno médio, o teto de 15% representa mais de R$ 32 mil por ano de resultado adicional — dinheiro que hoje sai do caixa do lojista e entra no da plataforma. Em termos práticos, esse valor é a diferença entre contratar um novo funcionário, investir em equipamento de cozinha, ou continuar operando no limite mês a mês.

O que já foi aprovado no mundo — e o que funcionou

O Brasil não seria pioneiro. Outras jurisdições já testaram modelos de regulação, com resultados documentados.

País / Cidade Legislação Teto de Taxa Vigência
Nova York (EUA) Local Law 2021 15% (comissão) / 23% (total) Permanente desde 2022
Espanha Ley Riders (RDL 9/2021) Sem teto direto Ago/2021
Reino Unido CMA Voluntary Code Sem teto legal 2022
França Loi Ubérisation 20% (proposta) Em debate
Coreia do Sul E-Commerce Act Amendment Investigação ativa 2023

Nova York é a referência mais próxima ao PL brasileiro por ter sido a primeira grande metrópole a aprovar e manter teto permanente de taxa, com dados de impacto publicados. A New York State Restaurant Association documentou que, nos 6 meses após a vigência do teto:

  • 72% dos restaurantes de pequeno porte relataram melhora na margem de delivery
  • O volume médio de pedidos não caiu — contrariando a tese das plataformas de que o teto reduziria a oferta
  • Uber Eats, DoorDash e Grubhub mantiveram operação integral no mercado
  • A economia média por restaurante ficou em torno de USD 2.500/mês

O Reino Unido optou por outro caminho: em vez de teto legal, a Competition & Markets Authority (CMA) impôs código de conduta com obrigação de transparência total sobre estrutura de taxas. Deliveroo e Just Eat passaram a publicar detalhadamente quanto cobram e por quê — o que pressionou indiretamente por redução.

A Espanha atacou o problema pelo lado do trabalho: a Ley Riders reconheceu o vínculo empregatício dos entregadores, o que aumentou o custo operacional das plataformas e forçou revisões de modelo.

O alerta que vem de fora: Nova York tem mercado pulverizado — três plataformas com 25-35% cada. No Brasil, com o iFood dominante, existe o risco real de a plataforma responder ao teto com redução de visibilidade para lojistas não-patrocinados. Se o PL avançar, precisará endereçar essa possibilidade em paralelo — do contrário, o teto de comissão pode ser compensado por pressão em impulsionamento pago.

O que isso significa para o seu negócio

Independentemente da aprovação do PL, três movimentos práticos fazem sentido para qualquer restaurante que opere via delivery hoje:

1. Meça o custo real por pedido, não a comissão nominal. Some comissão + taxa de entrega absorvida + valor gasto em impulsionamento pago dentro do app. Divida pelo número de pedidos. Esse é o custo real por venda. Muitos lojistas descobrem que operam com 35% a 40% de custo efetivo — bem acima da comissão anunciada.

2. Diversifique canais. Depender de uma única plataforma para mais de 60% do faturamento delivery é risco estrutural. Cardápio próprio no WhatsApp, marketplace alternativo com comissão menor, e pedido direto pelo Google Maps são caminhos que reduzem a dependência.

3. Acompanhe o PL 2847/2026 e outros movimentos regulatórios. A Abrasel tem se posicionado ativamente no debate. Associar-se e participar de consultas públicas dá voz coletiva a uma pauta que, individualmente, o lojista pequeno não consegue mover.

Conclusão

O PL 2847/2026 não é só uma pauta legislativa. É o termômetro de um modelo que chegou ao limite de sustentabilidade para os elos mais frágeis da cadeia. Se aprovado, o teto de 15% representa milhares de reais a mais no caixa de cada restaurante pequeno — recurso que hoje financia a operação da plataforma, não a expansão do seu negócio.

Enquanto o debate avança no Congresso, o mercado já sinaliza que modelos alternativos são possíveis. O Trend SuperApp opera com 0% de comissão por pedido e repasse no mesmo dia (D0) — exatamente o piso que o PL tornaria lei. Se você quer parar de esperar a legislação para recuperar sua margem, cadastre sua loja no Trend SuperApp e comece a operar sob o modelo que o setor está debatendo como o novo mínimo.

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