Lei dos Entregadores em 2026: o custo silencioso que vai parar no caixa do lojista

Enquanto o debate público foca nos direitos dos entregadores, o impacto financeiro da regulamentação vai atingir em cheio o lojista de delivery. Entenda os números, os cenários internacionais e as decisões que você precisa tomar antes que a conta chegue.

Onde a lei está e o que ela propõe

O PL 3748/2020, junto com projetos substitutivos, tramita há mais de quatro anos no Congresso. Em meados de 2025, o texto aguarda votação em plenário no Senado, depois de ter passado por comissão na Câmara. A proposta central consolida uma nova categoria jurídica — o trabalhador autônomo por plataforma — que não é CLT, mas garante benefícios mínimos: seguro contra acidentes, contribuição previdenciária com alíquota reduzida e piso de remuneração por hora efetivamente trabalhada.

O ponto crítico para o seu negócio está no financiamento dessas garantias. Segundo Nota Técnica nº 109 do Ipea (2023), a regulamentação adicionaria entre R$ 0,50 e R$ 1,20 por entrega ao custo das plataformas. Parece pouco isoladamente. Mas com 1,5 milhão de entregadores ativos no país (dado do Ministério do Trabalho, 2024) e um mercado que movimentou R$ 59,8 bilhões em 2023 (Statista), a fatura acumulada das plataformas será bilionária — e nenhuma delas absorve custo bilionário sozinha.

O que a experiência internacional mostra sobre o repasse

O Brasil não é o primeiro país a regulamentar o trabalho por aplicativo. Olhar o que aconteceu em outros mercados é o exercício mais honesto de projeção que existe hoje.

Na Espanha, a "Lei Rider" (2021) foi a mais severa: reconheceu vínculo empregatício pleno para entregadores. Resultado? O custo operacional das plataformas subiu entre 30% e 40%, e Glovo e Deliveroo repassaram parte da conta às taxas cobradas dos restaurantes. O Deliveroo, inclusive, encerrou operações no país. Na Califórnia, o modelo da Prop 22 foi mais brando — categoria intermediária com benefícios mínimos — e ainda assim elevou o custo por entrega em cerca de 16%, com o Uber Eats aumentando as taxas dos lojistas entre 1,5% e 3% (UC Berkeley Labor Center, 2021). No Reino Unido, após decisão da Suprema Corte que reconheceu motoristas de aplicativo como "workers" (categoria intermediária), as taxas para restaurantes subiram entre 2% e 4%.

O cenário brasileiro em tramitação se aproxima mais do modelo californiano ou francês do que do espanhol. Isso é boa notícia relativa — o impacto tende a ser gradual, não catastrófico. Mas gradual não é o mesmo que irrelevante.

Fazendo a conta com os números que existem

Aqui vale um exercício com os dados públicos disponíveis, sem forçar projeções sem lastro. Se aplicarmos o custo adicional estimado pelo Ipea (R$ 0,50 a R$ 1,20 por entrega) sobre um ticket médio de delivery de R$ 68,50 em 2024 (dados de imprensa do iFood Insights), o impacto direto por pedido fica entre 0,7% e 1,8%.

Parece pequeno. Mas é apenas o piso do impacto. A esse custo direto se somam três camadas frequentemente esquecidas: adaptação operacional das plataformas (sistemas, treinamento, compliance), aumento das contribuições previdenciárias sobre a massa de entregadores ativos, e o histórico comportamento das plataformas de aproveitar ciclos regulatórios para ajustes de taxa mais amplos. Somando essas camadas, projeções setoriais que circulam entre consultorias apontam para pressões de custo logístico entre 8% e 15% no médio prazo — número plausível quando cruzado com o que ocorreu na Espanha e nos EUA, embora ainda careça de fonte primária pública que o cristalize.

Para um lojista que fatura R$ 20.000 por mês em delivery e paga 30% de comissão às grandes plataformas — média de mercado apurada pela Abrasel —, isso significa R$ 6.000 mensais já saindo do caixa hoje. Um repasse de 10% sobre essa estrutura adiciona R$ 600 por mês, ou R$ 7.200 no ano. Para uma operação com margem líquida entre 5% e 15% (faixa típica do setor segundo CNC/Abrasel), esse valor não é ajuste — é redesenho.

O que isso significa para o seu negócio

A pior decisão possível é esperar o repasse chegar para reagir. Três movimentos práticos você pode fazer agora:

  1. Recalcule sua precificação de delivery separadamente do salão. Muito lojista ainda pratica preço único. Se o custo de entrega vai subir, o cardápio digital precisa refletir isso antes do choque. Ajustes pequenos e escalonados são mais bem absorvidos pelo consumidor do que reajustes abruptos.
  2. Mapeie sua dependência de canal. Se mais de 60% do seu delivery vem de uma única plataforma, você não tem negócio — tem refém. Diversificar canais (WhatsApp, site próprio, marketplaces alternativos) reduz seu risco regulatório e comercial no mesmo movimento.
  3. Meça seu custo real por pedido, não o percentual. Comissão de 30% em ticket de R$ 50 é R$ 15. Se o ticket cair para R$ 40 com repasse de custos, o percentual continua o mesmo, mas sua margem líquida por pedido despenca. A gestão precisa ser em reais absolutos, não em percentuais.

A janela que você tem

Nenhuma regulamentação séria entra em vigor da noite para o dia. A tendência dos projetos em tramitação é de implementação faseada em 18 a 36 meses após sanção — o que dá uma janela real de adaptação. Lojistas que anteciparem os ajustes de precificação e reduzirem a dependência das plataformas de alta comissão sairão do outro lado da lei em vantagem competitiva. Os que esperarem o comunicado oficial de aumento das taxas vão descobrir, tarde demais, que o problema nunca foi o entregador ganhando mais — foi a estrutura de comissão que já era insustentável antes da lei existir.

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