Comissão de até 27%: quanto sua loja perde por pedido no delivery

Um lojista com 500 pedidos por mês pode estar deixando até R$ 8.820 por mês na mesa das grandes plataformas de delivery. E um projeto de lei em tramitação na Câmara pode redesenhar essas regras antes do recesso de julho. Fizemos as contas.

Quanto cada plataforma cobra (e por que a faixa é tão larga)

As comissões cobradas pelas grandes plataformas de delivery no Brasil variam mais do que a maioria dos lojistas imagina. No iFood, a faixa documentada publicamente vai de 12% no Plano Básico até 27% no Plano Entrega — o modelo que inclui logística da própria plataforma. No Rappi, a faixa fica entre 15% e 30%, dependendo da categoria, cidade e contrato negociado. A Uber Eats, para efeito de comparação histórica, operava com taxas de 15% a 30% antes de encerrar a operação de restaurantes no Brasil em março de 2023.

No canal direto, a matemática muda radicalmente. Não há comissão sobre a venda: o único custo transacional é a taxa do gateway de pagamento, que fica em torno de 2,5% para cartão de crédito e frações de percentual para Pix. Esse é o ponto de partida para entender por que tantos lojistas estão repensando a dependência das plataformas.

A largura da faixa de comissão do iFood — de 12% a 27% — merece atenção especial. O Plano Básico existe, mas coloca o lojista em segundo plano no algoritmo de exibição. Para aparecer nas primeiras posições e receber logística integrada, o custo real cobrado da maioria dos restaurantes fica na faixa alta. Ou seja: os 12% são teóricos para quem quer volume; os 23% a 27% são a realidade operacional.

A simulação: R$ 17,64 por pedido de diferença

Para tirar a discussão do abstrato, montamos uma simulação com ticket médio de R$ 72,00 — valor de referência do mercado brasileiro segundo o iFood Trends Report de 2023. Consideramos CMV (custo de mercadoria vendida) de 35%, custo operacional fixo alocado de R$ 8,00 e embalagem de R$ 3,50 por pedido.

Resultado por pedido:

  • iFood Plano Básico (12%): taxa de R$ 8,64 — sobra R$ 27,86 de margem bruta (38,7%)
  • iFood Plano Entrega (27%): taxa de R$ 19,44 — sobra R$ 17,06 de margem bruta (23,7%)
  • Rappi médio (22%): taxa de R$ 15,84 — sobra R$ 20,66 de margem bruta (28,7%)
  • Canal direto (2,5% gateway): taxa de R$ 1,80 — sobra R$ 34,70 de margem bruta (48,2%)

A diferença entre operar no canal direto e no iFood Plano Entrega é de R$ 17,64 por pedido. Parece pouco isoladamente. Multiplique por volume mensal e o quadro fica claro:

  • 100 pedidos/mês: R$ 1.764 de diferença
  • 300 pedidos/mês: R$ 5.292 de diferença
  • 500 pedidos/mês: R$ 8.820 de diferença
  • Anualizado (500 pedidos/mês): R$ 105.840

Esse é o custo real da dependência. E ele não aparece na fatura mensal como uma linha destacada: aparece diluído em cada pedido, tornando difícil para o lojista perceber o tamanho do rombo.

O PL 3.515/2023: o que pode mudar antes de julho

Enquanto os números pressionam a margem dos lojistas, o Congresso começou a se mexer. O PL 3.515/2023, em tramitação na Câmara dos Deputados junto com o PL 2.923/2024, propõe mudanças estruturais que, se aprovadas, reescreveriam o contrato entre plataformas e restaurantes.

Os pontos centrais do projeto são:

  • Teto de 15% de comissão para plataformas com mais de 50 mil entregadores cadastrados
  • Contrato escrito obrigatório com prazo mínimo de 30 dias para rescisão unilateral
  • Transparência algorítmica sobre critérios de rankeamento de restaurantes
  • Proibição de parity pricing — a cláusula que impede o lojista de vender mais barato no próprio canal do que na plataforma

O projeto está em análise na Comissão de Desenvolvimento Econômico da Câmara, com pauta prevista para votação antes do recesso parlamentar de julho de 2025. Se aprovado nos termos atuais, a comissão máxima do iFood Plano Entrega cairia de 27% para 15% — uma redução que devolveria cerca de R$ 8,64 por pedido de R$ 72,00 ao caixa do lojista.

Vale a nota realista: projetos de lei costumam sofrer emendas e diluições ao longo da tramitação. Mesmo assim, o simples fato de o tema estar na pauta indica que a pressão regulatória chegou ao ponto de o Congresso considerar teto explícito. É a primeira vez que se discute publicamente um limite legal para a comissão de plataformas de delivery no Brasil.

Por que a migração para o canal direto acelerou agora

Três fatores convergiram nos últimos 18 meses para acelerar o movimento de lojistas em direção ao canal direto. O primeiro é a maturidade da tecnologia: ferramentas de cardápio digital, gestão de pedidos e integração com WhatsApp e Pix ficaram acessíveis mesmo para pequenos operadores. Montar um canal próprio deixou de ser projeto de TI e virou configuração de plataforma.

O segundo fator é a saturação da concorrência dentro das plataformas. Quando 80% do mercado de delivery de comida do Brasil está concentrado em uma única plataforma — situação estimada por relatórios setoriais recentes —, o custo de aquisição de cliente dentro dela sobe. Cupons, patrocínios de posição e planos premium viraram condição de sobrevivência, não diferencial.

O terceiro é a consciência de margem. Segundo a Pesquisa de Conjuntura da Abrasel, 43% dos restaurantes afirmam que as taxas de delivery comprometem a viabilidade do negócio. Não é mais uma percepção isolada de alguns lojistas mais críticos: é uma constatação majoritária de um setor inteiro.

O que isso significa para o seu negócio

Se sua loja opera com dependência total das grandes plataformas, três ações concretas podem ser tomadas nos próximos 30 dias:

  1. Faça a conta real da sua operação. Pegue o volume de pedidos do último mês, o ticket médio e a comissão efetiva que aparece no seu extrato. Multiplique. O número absoluto costuma ser um choque útil.
  2. Comece pelo canal direto complementar, não substituto. Não é preciso sair das plataformas de uma vez. Um canal direto próprio (com cardápio digital, Pix e WhatsApp integrado) que capture 20% a 30% do seu volume já paga um funcionário ou reforma o salão.
  3. Diversifique o risco regulatório e comercial. Independentemente do que aconteça com o PL, depender de uma única plataforma para 100% da sua receita é um risco de negócio que nenhum consultor recomendaria em qualquer outro setor.

O custo da inação é claro: cada mês em que o lojista mantém 100% do volume em plataforma de comissão alta é um mês em que R$ 5 mil, R$ 8 mil ou R$ 10 mil saem do caixa sem contrapartida proporcional em serviço.

Conclusão

A discussão sobre comissões de plataforma deixou de ser reclamação de bastidor e virou pauta regulatória, econômica e de sobrevivência. Os números da simulação mostram que a diferença por pedido — R$ 17,64 no cenário mais agressivo — se transforma em mais de R$ 100 mil por ano no bolso de lojistas com volume relevante. O PL 3.515/2023 pode acelerar a mudança pelo lado da lei, mas o movimento já começou pelo lado do mercado.

A pergunta que fica é simples: quanto sua loja está pagando este mês em comissão que não precisaria pagar?

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