Brasil lidera uso de apps de delivery no mundo: o que muda para o lojista em 2025

O Brasil é o país que mais usa apps de delivery no mundo. Parece só um dado de orgulho — mas, para quem opera uma loja no setor, é um mapa de decisões que precisa ser lido com atenção.

Por que o Brasil chegou ao topo

Três fatores estruturais explicam a liderança brasileira, e nenhum deles é acaso.

O primeiro é a densidade urbana. Mais de 87% da população vive em áreas urbanas, segundo o IBGE (Censo 2022), com metrópoles que criam as condições ideais para o delivery funcionar: raios curtos de entrega, mão de obra disponível de entregadores e consumidores acostumados a resolver o dia a dia pelo celular. São Paulo, sozinha, é um dos maiores mercados individuais de delivery do planeta.

O segundo é comportamental. Durante a pandemia, o Brasil registrou uma das maiores taxas de adoção de apps de delivery do mundo. A diferença é que, aqui, o hábito não recuou depois. Pedir comida pelo app se normalizou no mesmo nível do Pix — virou rotina, não conveniência de emergência. Segundo a Opinion Box, 52% dos brasileiros com smartphone pediram delivery pelo menos uma vez por mês em 2023.

O terceiro fator é o que mais interessa ao lojista: o mercado ainda cresce. A projeção de crescimento anual do setor no Brasil é de cerca de 8% a 10% até 2028, puxada especialmente pela expansão para cidades de médio porte no interior, onde a penetração ainda é baixa comparada às capitais. Ou seja: o topo do ranking não é um teto — é uma base.

O paradoxo brasileiro: mais volume, menos margem

Aqui é onde o dado bonito começa a ficar incômodo. O Brasil não só lidera em uso — lidera também em concentração de mercado. O iFood detém aproximadamente 80% dos pedidos feitos por plataforma no país, segundo dados do Euromonitor e reportagens do Valor Econômico. Nos Estados Unidos, para comparação, o líder DoorDash tem cerca de 37%. Na Índia, o Swiggy fica na casa dos 45%.

Alta concentração significa baixo poder de barganha para o lojista. E isso aparece direto no bolso: as comissões cobradas pelas plataformas dominantes no Brasil ficam entre 27% e 30% por pedido, segundo levantamentos da Abrasel e reportagens da imprensa econômica. Nos EUA, onde há três grandes plataformas disputando lojistas, a média é de 15% a 30%, com bastante variação. Na China, dominada pela Meituan, a faixa fica entre 18% e 22%.

Em números concretos: um pedido de R$ 70 (ticket médio estimado no Brasil, segundo a Abrasel) rende ao lojista, depois da comissão da plataforma, cerca de R$ 49. Descontando insumos, embalagem, energia e mão de obra, a margem operacional líquida do delivery em plataforma dominante costuma ficar abaixo de 10%. Sem volume alto ou diferenciação forte, o modelo se torna inviável.

E o volume é justamente o que a plataforma controla. Com mais de 300 mil restaurantes cadastrados só no iFood (dado divulgado pela própria empresa em 2024), a visibilidade dentro do app depende cada vez mais de investimento em anúncios pagos e cupons — outra camada de custo que corrói margem.

O consumidor mudou de patamar

Um consumidor que pede delivery três a quatro vezes por mês, como aponta a média brasileira segundo dados do iFood Insights, não é mais o mesmo consumidor de 2020. Ele compara tempo de entrega entre lojas, avalia embalagem, cobra atendimento e escreve review. A maturidade do mercado brasileiro criou um cliente exigente que, na prática, funciona como auditor de qualidade em tempo real.

Isso muda a operação. O que antes era diferencial — embalagem caprichada, brinde surpresa, mensagem personalizada — hoje é ponto de partida. E a inflação do grupo "alimentação fora do domicílio" acumulada nos últimos 12 meses (5,3%, segundo IPCA/IBGE de outubro de 2024) elevou o ticket médio, mas também aumentou a expectativa: quem paga mais caro cobra mais rápido, mais quente, mais bem embalado.

Para o lojista, a leitura é dura mas útil: o consumidor brasileiro premia consistência acima de tudo. Não adianta uma entrega excelente em dez pedidos e uma bagunça no décimo primeiro. O mercado maduro pune o erro esporádico com a mesma rapidez que recompensa a rotina impecável.

O que isso significa para o seu negócio

Se o Brasil é o país que mais usa delivery no mundo, o lojista brasileiro opera no mercado mais competitivo do mundo. Isso muda três decisões estratégicas que precisam entrar no planejamento de 2025:

1. Diversificar canal deixou de ser opcional. Depender de uma plataforma que cobra 27% a 30% e concentra 80% do mercado é risco operacional puro. Construir canal próprio — seja WhatsApp, site próprio ou marketplace alternativo — não é sobre romper com a plataforma dominante, é sobre não ficar refém dela.

2. Recuperar margem vale mais do que aumentar volume. Um lojista com faturamento de R$ 30 mil por mês em delivery, ao migrar parte da operação de uma plataforma com 30% de comissão para um canal com 0%, recupera até R$ 9 mil de margem — sem servir um pedido a mais. Esse dinheiro paga funcionário, pagamento de fornecedor ou reinvestimento em produto.

3. A janela para conquistar cliente próprio ainda está aberta. O mercado cresce a 9% ao ano e o interior ainda está sub-penetrado. Quem constrói base de clientes fidelizados agora paga o custo de aquisição de 2025. Quem esperar mais dois anos vai pagar o custo de 2027 — que será significativamente mais caro.

Conclusão

Ser o país número 1 em uso de apps de delivery é um dado que muda a leitura do negócio. Significa que a demanda está garantida, mas também que a competição é a mais acirrada do planeta e as margens, as mais pressionadas. Em um mercado assim, o lojista que continua entregando 30% do faturamento para uma única plataforma está trabalhando para o negócio dos outros.

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