Frete vai ficar mais caro: o que a regulamentação dos entregadores muda para quem vende no delivery

A partir de 1º de setembro, o piso de R$ 32/hora e o repasse mínimo de 27% mudam a conta do delivery. Projeções apontam alta de 12% a 18% no frete — e parte desse custo vai parar no seu caixa. O que fazer antes disso virar problema.

A conta que ninguém te mostrou ainda

Para entender o tamanho do impacto, vale olhar a estrutura de custos do delivery hoje. Segundo o Sebrae, a margem líquida média de restaurantes que operam predominantemente via aplicativo fica entre 5% e 12%. O custo total de operação no delivery — embalagem, comissão de plataforma, frete e operação — já consome entre 35% e 45% da receita bruta do pedido em estabelecimentos de pequeno porte.

Agora some a isso o repasse mínimo de 27% que as plataformas vão precisar fazer aos entregadores. As três principais plataformas do país (iFood, Rappi e Uber Eats), que respondem por mais de 90% do mercado formal de delivery, já sinalizaram publicamente que o aumento será distribuído entre consumidores, entregadores e lojistas. O iFood inclusive anunciou revisão de contratos com restaurantes parceiros.

Em números práticos: para um pedido de ticket médio de R$ 60 (média do mercado, segundo o relatório anual de 2023 do iFood) com frete de R$ 8, o acréscimo no frete fica entre R$ 0,96 e R$ 1,44 por pedido. Parece pouco isolado. Mas multiplique por 500, 1.000, 3.000 pedidos no mês — e some à pressão por novos repasses na taxa de serviço cobrada do lojista.

Quem está mais exposto

A Abrasel mapeou em pesquisa de 2024 um dado que ajuda a dimensionar o risco: 63% dos restaurantes que operam com delivery têm mais de 40% do faturamento vindo de pedidos via aplicativo. Entre estabelecimentos menores, com faturamento até R$ 50 mil/mês, esse percentual sobe para 71%.

Ou seja: a maior parte do setor depende fortemente das plataformas grandes para girar — e é justamente esse grupo que tem menor poder de negociação para evitar o repasse do custo. Como a margem já é apertada (5% a 12%), um aumento de 8% a 15% nos custos operacionais pode levar uma parte considerável dos negócios para o vermelho.

Tem ainda um agravante de contexto. O IPCA de 2024 fechou com alta de 7,69% no grupo "Alimentação fora do domicílio", acima da inflação geral de 4,83%, segundo o IBGE. O CMV do lojista já vinha pressionado antes da regulamentação. O frete mais caro chega num momento em que muitos restaurantes já estão segurando reajuste de cardápio para não perder cliente.

O movimento das plataformas e o risco competitivo

Vale entender também o que está acontecendo do outro lado da mesa. As plataformas têm três opções para absorver o novo custo: repassar para o consumidor (frete mais caro), repassar para o lojista (comissão maior ou taxa de serviço) ou reduzir margem própria. Historicamente, o setor opta pelas duas primeiras.

E há um efeito colateral importante. Com frete mais caro, parte dos consumidores tende a migrar para opções de maior escala — como dark kitchens, que já vinham crescendo no Brasil por terem operação mais enxuta. Pequenos restaurantes de bairro, que competem por preço final entregue, podem perder competitividade num cenário onde cada real no frete pesa mais na decisão de compra.

O que isso significa para o seu negócio

A pergunta prática é: o que dá para fazer antes de 1º de setembro? Três frentes são as mais acionáveis no curto prazo.

1. Mapeie sua dependência por canal. Se mais de 40% do seu faturamento vem de uma única plataforma, você está no grupo de risco identificado pela Abrasel. O primeiro passo é saber exatamente quanto cada canal representa — incluindo o que sobra de margem após comissão.

2. Fortaleça canal próprio agora. Restaurantes que migraram parte do volume para WhatsApp, site próprio ou plataformas alternativas relatam economia de 15% a 28% em comissões, segundo o Sebrae. A adoção de sistemas próprios de pedido cresceu 35% entre 2022 e 2024 — não por acaso.

3. Revise cardápio e ticket médio. Itens de baixa margem ficam inviáveis num cenário de frete mais caro. Combos, upsell e foco em ticket maior diluem o impacto do frete sobre cada pedido.

Conclusão

A regulamentação dos entregadores é uma conquista importante para 1,5 milhão de trabalhadores que mantêm o delivery rodando no Brasil. Mas o lojista que ficar parado esperando setembro chegar vai descobrir, na pior hora, que parte da conta foi parar no caixa dele. A janela para diversificar canal e proteger margem é agora.

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