Comissão de 27% ou canal próprio? O ponto de equilíbrio em pedidos por dia

A conta entre pagar 27% de comissão ou montar um canal próprio de delivery não é ideológica — é matemática. Fizemos a simulação para três perfis de restaurante e descobrimos em qual volume diário cada um começa a ganhar dinheiro de verdade.

A conta que você está pagando hoje (e raramente vê detalhada)

Antes de comparar canais, vale colocar os números em cima da mesa. A estrutura típica de um restaurante brasileiro, segundo o Sebrae e a Abrasel, fica em torno de 30% de CMV, 30% de mão de obra, 20% de overhead (aluguel, energia, embalagem) e margem operacional de 15-20% no salão.

No delivery via plataforma, entra mais uma camada: a comissão. O iFood opera com três planos públicos — Básico (12%, sem entrega), Entrega (23%) e Entrega + Visibilidade (~27%), conforme Consumidor Moderno (2024). Considerando taxas adicionais, embalagem (R$ 1,50 a R$ 8,00 por pedido, segundo a Abrasel) e o fato de que a comissão efetiva total pode chegar a 30-35% do GMV em alguns contratos, o resultado é direto: a margem do delivery costuma ficar 8 a 12 pontos percentuais abaixo da margem do salão. É exatamente esse gap que o canal próprio promete recuperar.

O custo real de montar canal próprio em 2026

A boa notícia é que, em 2026, montar canal próprio não exige mais desenvolver um app. As opções viáveis para um lojista pequeno ou médio são três:

  • WhatsApp Business + cardápio digital: R$ 0 a R$ 299/mês em plataformas como Anota AI ou Goomer
  • SaaS de cardápio próprio com pedido online: R$ 99 a R$ 499/mês, segundo levantamento Sebrae/Abrasel (2024)
  • App white-label dedicado: R$ 150 a R$ 600/mês, indicado para quem já tem volume

Some a isso o custo de entrega. Pelas tabelas públicas de Lalamove, Loggi e Uber Flash (2024), uma entrega de moto em São Paulo custa entre R$ 9 e R$ 18 via app de entregadores. Motoboy CLT sai mais caro: R$ 20 a R$ 30 por entrega quando você diluí salário, encargos e manutenção da moto. E tem ainda o CAC: segundo Food Service News (2024), trazer um cliente novo para canal próprio custa entre R$ 15 e R$ 45 em campanhas digitais.

Simulação: três perfis, três pontos de equilíbrio

Para deixar a conta prática, montamos três cenários com base nos dados de ticket médio e volume da Abrasel SP (2024) e ABF (2024). Em todos eles, assumimos comissão de plataforma de 25% (média ponderada entre Entrega e Entrega+Visibilidade) e custo de canal próprio com SaaS + entrega via app de entregadores.

Perfil 1 — Lanchonete pequena

  • Ticket médio: R$ 42 | Volume atual via plataforma: 30 pedidos/dia
  • Custo plataforma por pedido: R$ 10,50 (25% de R$ 42)
  • Custo canal próprio por pedido: R$ 12 entrega + R$ 0,33 SaaS rateado (R$ 299/mês ÷ 900 pedidos) = R$ 12,33
  • Resultado: no perfil pequeno, a entrega terceirizada come quase toda a economia da comissão. A viabilidade só aparece em duas situações: (1) cliente retira no balcão, eliminando o custo de entrega, ou (2) a plataforma usada cobra 0% de comissão e oferece logística integrada. Sem isso, o ponto de equilíbrio só fecha acima de 50 pedidos/dia com retirada parcial.

Perfil 2 — Restaurante médio

  • Ticket médio: R$ 68 | Volume: 80 pedidos/dia
  • Custo plataforma: R$ 17 por pedido (25%)
  • Custo canal próprio: R$ 14 entrega + R$ 0,21 SaaS rateado = R$ 14,21
  • Economia: R$ 2,79 por pedido. Em 80 pedidos/dia, isso representa R$ 6.696/mês de margem adicional. Ponto de equilíbrio: 35 pedidos/dia. Acima disso, o canal próprio começa a pagar a infraestrutura e gerar margem real. É exatamente o perfil em que o Estadão PME (2023) reportou caso de redução de comissão de 27% para 8% após migração parcial.

Perfil 3 — Franquia média (rede com 5+ unidades)

  • Ticket médio: R$ 55 | Volume: 120 pedidos/dia/unidade
  • Custo plataforma: R$ 13,75 por pedido
  • Custo canal próprio: R$ 11 entrega (volume melhor negociado) + R$ 0,11 SaaS rateado = R$ 11,11
  • Economia: R$ 2,64 por pedido × 120 = R$ 9.504/mês por unidade. Em uma rede de 5 unidades, são R$ 47.520/mês — valor que justifica investir em app próprio (R$ 80k-200k de desenvolvimento, segundo o Portal do Franchising). Ponto de equilíbrio: 25 pedidos/dia/unidade.

A variável que muda tudo: retenção

A simulação acima considera apenas a economia transacional. Mas tem um efeito que aparece no médio prazo e muda a conta: a recompra. Segundo análise da Gartner adaptada ao food service, a taxa de recompra no canal próprio com programa de fidelidade é 2,3x maior que via marketplace após 6 meses. E há um dado da Sebrae (2024) que assusta: 67% dos consumidores não lembram o nome do restaurante depois de pedir via plataforma.

Em outras palavras: cada pedido via marketplace é uma transação anônima. Cada pedido via canal próprio é um cliente que você passa a ter — com nome, telefone, histórico e possibilidade de campanha de reativação por R$ 0,00.

O que isso significa para o seu negócio

A simulação deixa três conclusões práticas:

  1. Se você está abaixo de 30 pedidos/dia, canal próprio com entrega terceirizada raramente fecha conta. O caminho é negociar comissão mais baixa, focar em retirada no balcão ou buscar plataforma com 0% de comissão e logística integrada.
  2. Entre 30 e 100 pedidos/dia, o canal próprio SaaS já paga a si mesmo a partir de 35-40 pedidos. Comece com WhatsApp + cardápio digital e migre clientes recorrentes — não tente abandonar a plataforma de uma vez.
  3. Acima de 100 pedidos/dia ou em rede, o investimento em app próprio começa a fazer sentido financeiro, mas o maior ganho não está na economia de comissão — está na base de clientes que você passa a possuir.

Conclusão

A pergunta "vale a pena sair das plataformas" tem resposta diferente para cada perfil — e ela está no número de pedidos por dia, no ticket médio e em quanto custa entregar. Mas tem um terceiro caminho que a simulação revela: plataformas que não cobram comissão e fazem a logística por você eliminam o ponto de equilíbrio. O lojista pequeno deixa de precisar atingir 50 pedidos/dia para começar a lucrar.

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