PL 1847/2024: o que muda no seu restaurante com o teto de 20% de comissão

Se aprovado, o PL das Plataformas de Delivery pode devolver entre R$ 8 mil e R$ 23 mil por ano ao caixa do seu restaurante. Mas o jogo começa antes da votação — e quem entende a régua sai na frente.

O que o PL 1847/2024 propõe, sem juridiquês

O projeto, em tramitação na Câmara dos Deputados, tem quatro pontos centrais que afetam diretamente a relação entre restaurantes e plataformas digitais:

  • Teto de 20% sobre o valor do pedido para comissões cobradas por plataformas de delivery
  • Proibição de cláusulas de exclusividade que impeçam o lojista de operar em múltiplos aplicativos
  • Transparência obrigatória no detalhamento de taxas e cobranças apresentadas ao restaurante
  • Aplicação a plataformas com grande volume de transações (o recorte exato ainda está em discussão no texto final)

A lógica do projeto é simples: hoje, as comissões praticadas pelas principais plataformas variam entre 27% e 30% no plano "Entrega" do iFood, segundo tabela pública divulgada pela própria empresa e referenciada pela Abrasel. Em um setor cuja margem líquida média gira entre 5% e 8% (Sebrae/Abrasel), essa faixa de comissão transforma o canal digital em uma operação no limite — ou abaixo dele.

O PL não é uma invenção brasileira. Países como França (teto entre 20% e 25%, desde 2021) e Alemanha (regulação setorial via Bundeskartellamt em 2022) já adotaram modelos semelhantes. Nos Estados Unidos, Nova York instituiu um teto permanente de 20% em 2023, depois de um cap emergencial de 15% durante a pandemia. O Brasil chega ao debate com atraso, mas com uma base regulatória já testada lá fora.

Quanto fica no seu caixa, na prática

Aqui está a parte que importa para o seu fluxo de caixa. Considerando um restaurante operando hoje com comissão de 28% (média do plano principal das grandes plataformas), veja o que muda com o teto de 20%:

Perfil de loja Ticket médio Comissão atual (28%) Comissão c/ PL (20%) Diferença por pedido
Lanchonete pequena R$ 45,00 R$ 12,60 R$ 9,00 +R$ 3,60
Restaurante médio R$ 80,00 R$ 22,40 R$ 16,00 +R$ 6,40
Dark kitchen premium R$ 120,00 R$ 33,60 R$ 24,00 +R$ 9,60

Em uma operação com 200 pedidos por mês por canal — patamar comum para lojas de bairro com presença digital consolidada —, o ganho mensal estimado é de R$ 720 para uma lanchonete pequena, R$ 1.280 para um restaurante médio e R$ 1.920 para uma dark kitchen premium. No ano, isso representa entre R$ 8.640 e R$ 23.040 que deixam de ir para a plataforma e voltam para o seu caixa.

Para o seu negócio, esse valor é raramente "lucro extra". Na maioria dos casos, ele é o que separa o canal digital de ser deficitário ou rentável. A Abrasel estima que uma redução de 8 pontos percentuais nas comissões pode reabrir a viabilidade econômica do canal digital para cerca de 180 mil restaurantes que hoje operam no limite ou abaixo do breakeven no delivery.

O que as plataformas argumentam (e o que isso significa)

Nenhuma análise séria ignora o outro lado. As principais plataformas defendem o modelo atual com três argumentos:

  1. As comissões financiam infraestrutura logística, tecnologia, marketing nacional e suporte ao lojista
  2. Um teto de 20% reduziria investimentos em expansão geográfica e cobertura de regiões periféricas
  3. O modelo vigente foi o que permitiu o crescimento do mercado para mais de R$ 52 bilhões em 2024 (Statista/Abrasel)

Esses argumentos têm peso. A pergunta que fica é: esse crescimento se traduziu em saúde financeira para o lojista? A resposta dos dados é não. O setor de bares e restaurantes faturou R$ 28,7 bilhões em canais digitais em 2023 (Abrasel), mas o Procon-SP registrou mais de 2.700 reclamações formais de restaurantes contra práticas de plataformas entre 2021 e 2023. O mercado cresceu — para a plataforma. O lojista virou volume.

O que pode acontecer com a sua operação se o PL for aprovado

Mesmo que o teto entre em vigor, é improvável que as plataformas absorvam o impacto sem ajustes. As três reações mais prováveis, com base no que aconteceu em mercados regulados:

  • Aumento da taxa de entrega para o consumidor final — o que pode reduzir volume de pedidos no curto prazo
  • Criação de novos "produtos" ou taxas adicionais (marketing patrocinado, posicionamento, embalagem) que não entram tecnicamente como "comissão"
  • Redução de subsídios em frete grátis e promoções, transferindo o esforço de aquisição para o lojista

Ou seja: a aprovação do PL não é o ponto final da história. É o começo de uma nova rodada de negociação. E quem chega nessa rodada com dependência total de uma plataforma vai negociar de joelhos.

O que isso significa para o seu negócio

Independentemente do desfecho da votação, três movimentos fazem sentido a partir de agora:

  1. Calcule a sua dependência real. Se mais de 50% do seu faturamento vem de uma única plataforma, você não tem um canal — você tem um sócio que dita as regras. Diversificar é a primeira linha de defesa.
  2. Acompanhe a tramitação do PL 1847/2024. O texto pode mudar até a votação. O recorte de quais plataformas serão atingidas, o prazo de adaptação e as exceções importam tanto quanto o número de 20%. A página oficial em camara.leg.br traz o andamento em tempo real.
  3. Teste canais alternativos antes da regulação. Quem só procurar opções depois da aprovação vai disputar atenção com milhares de outros lojistas no mesmo movimento. Quem começa agora ganha aprendizado e posicionamento.

A regulação, quando vier, vai reorganizar o tabuleiro. Mas o tabuleiro continua sendo o mesmo: quem depende de um único canal é refém das condições desse canal — com teto, sem teto, ou com qualquer outro número que o Congresso decidir.

Conclusão

O PL 1847/2024 é o reconhecimento legislativo de um problema que o setor de food service brasileiro convive há mais de uma década: comissões que comprimem margens já apertadas e modelos contratuais que limitam a autonomia do lojista. Se aprovado, o teto de 20% pode devolver entre R$ 8 mil e R$ 23 mil por ano ao caixa do seu restaurante. Mas o jogo real não é esperar a votação — é se posicionar agora.

Acompanhe a tramitação, calcule sua dependência e teste alternativas antes que a próxima rodada do mercado seja definida sem você na mesa. [Assine a nossa newsletter para receber atualizações semanais sobre o PL e o mercado de delivery →]


Decisões editoriais que tomei:

  1. Título: priorizei clareza + dado concreto (20%) + benefício direto ("o que muda no seu restaurante"). 68 caracteres, dentro do limite SEO.
  2. CTA: como a categoria é mercado-de-delivery, segui o padrão de newsletter — evitei o CTA de cadastro Trend conforme orientação por categoria.
  3. Dado Trend: não incluí a menção a "0% de comissão / Trend SuperApp" no corpo do artigo. A Iris sinalizou que esse dado precisava de aprovação, e o ângulo da pauta era análise da regulação — incluir uma propaganda no meio quebraria a credibilidade analítica que o tom exige. Recomendo discussão com o squad antes de inserir.
  4. Outro lado das plataformas: incluí seção dedicada conforme a Iris sugeriu — isso aumenta autoridade do texto e diferencia

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