Teto de 20% no delivery: o que muda no caixa do seu restaurante quando a lei passar

O teto de comissão do iFood deixou de ser pauta de bastidor e virou projeto aprovado na Câmara. Mas o que isso muda, em reais, no fim do seu mês? Fizemos as contas.

Como funciona hoje: a tabela atual do iFood

O iFood opera com três planos principais para restaurantes parceiros, segundo o Portal do Parceiro da plataforma:

  • Básico: 12% de comissão — sem entrega feita pelo app, restaurante usa logística própria
  • Entrega: 23% de comissão — inclui a entrega pelo iFood
  • Entrega + Descoberta: 27% a 30% de comissão — entrega feita pelo app mais posicionamento privilegiado no ranqueamento

A Abrasel calcula que o custo total do canal delivery em grandes plataformas (comissão + embalagem + promoções obrigatórias) varia entre 35% e 42% da receita bruta de cada pedido. O resultado aparece na pesquisa Barômetro Abrasel 2024: 48% dos restaurantes tiveram queda de lucratividade nos pedidos via app em 2024 comparado a 2023.

Simulação: o pedido de R$ 52 antes e depois da lei

O ticket médio do delivery brasileiro em 2024 é de R$ 52, segundo levantamento da Statista. Vamos pegar esse pedido e abrir a conta em dois cenários reais: um restaurante no plano Entrega + Descoberta do iFood (27%) hoje, e o mesmo restaurante operando sob o teto de 20% da nova lei.

Cenário atual — comissão de 27%:

  • Receita bruta: R$ 52,00
  • Comissão iFood (27%): – R$ 14,04
  • CMV (32% — referência Sebrae): – R$ 16,64
  • Embalagem: – R$ 3,50
  • Rateio de custos fixos (15%): – R$ 7,80
  • Margem líquida por pedido: R$ 10,02 (19,3%)

Cenário regulado — comissão de 20%:

  • Receita bruta: R$ 52,00
  • Comissão iFood (20%): – R$ 10,40
  • CMV (32%): – R$ 16,64
  • Embalagem: – R$ 3,50
  • Rateio de custos fixos (15%): – R$ 7,80
  • Margem líquida por pedido: R$ 13,66 (26,3%)

A diferença é de R$ 3,64 por pedido — 36% a mais de margem líquida. Para um restaurante que faz 30 pedidos por dia, isso representa R$ 3.276 a mais no caixa por mês. Em um ano: cerca de R$ 39 mil. Esse é o tamanho do problema que a lei tenta corrigir, e também o tamanho da oportunidade que está sendo discutida.

O que diz o iFood — e por que o lojista precisa ler com atenção

Em resposta pública ao projeto, o iFood declarou à Exame que o teto pode levar a aumento de taxas para o consumidor e à redução de investimentos em tecnologia. A análise do Valor Econômico estima que a receita líquida da plataforma pode cair entre 15% e 25% com a nova lei, a depender do mix de planos.

Tradução: se a lei passar, é provável que a plataforma tente recompor receita por outros caminhos — taxa de entrega ao consumidor, taxa de serviço, novas categorias pagas dentro do app. O teto de 20% é um limite sobre a comissão do restaurante, mas não impede que o custo total do ecossistema seja remanejado. Vale acompanhar de perto o texto final e o que o Senado vai discutir nos próximos meses.

O que isso significa para o seu negócio

Enquanto a lei não entra em vigor, três movimentos práticos já podem ser feitos agora:

1. Calcule a margem real de cada pedido. Segundo o Sebrae, 43% dos microempreendedores do setor operam no delivery sem saber o custo real por pedido. Abra uma planilha simples: ticket médio menos comissão, CMV, embalagem e rateio de fixos. Se o número der negativo ou abaixo de 10%, o canal está consumindo o caixa em vez de alimentá-lo.

2. Diversifique os canais de venda. A Pequenas Empresas & Grandes Negócios aponta que cresce o interesse de restaurantes por plataformas com taxas menores e por canais próprios — site, WhatsApp, app white label. Não é sobre abandonar o iFood; é sobre não depender só dele.

3. Renegocie o plano atual. Se 61% dos restaurantes consideram a taxa o maior problema do negócio, vale revisar se o plano Entrega + Descoberta (27-30%) entrega retorno proporcional ao custo. Em muitos casos, voltar para o Básico (12%) com logística própria sai mais barato — mesmo somando o custo do entregador.

A regulação é importante, mas não resolve sozinha

O teto de 20% é um passo relevante, mas o cenário ideal não é simplesmente trocar 27% por 20%. É operar em um modelo onde a comissão não corrói metade da margem do prato. O Trend SuperApp já opera nesse modelo: 0% de comissão sobre as vendas, repasse D0 (o dinheiro cai na sua conta no mesmo dia do pedido) e logística integrada — exatamente para devolver ao lojista o controle financeiro que o mercado vinha tirando.

A lei pode demorar a entrar em vigor. Sua margem, não.

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