Comissões de até 30% no delivery: o que muda para o seu restaurante se o PL passar

A Abrasel pressiona o Congresso por um teto de 15% nas comissões de aplicativos de delivery. Na prática, isso pode dobrar a margem de operação do seu restaurante. Veja a simulação financeira e os caminhos disponíveis hoje.

Quanto custa, na prática, vender via aplicativo

As três principais plataformas operam com estruturas escalonadas de comissão. No iFood, que concentra mais de 80% do mercado brasileiro, os planos variam entre 12% (Básico, sem logística da plataforma) e 30% (Entrega+, com logística e maior visibilidade no app), segundo levantamentos da Folha de S.Paulo e portais especializados. Rappi opera na faixa de 20% a 30%, e Uber Eats entre 15% e 30%, conforme o modelo logístico escolhido.

O detalhe que raramente aparece nas tabelas comparativas: os planos mais baratos reduzem a comissão, mas penalizam a visibilidade algorítmica. Na prática, restaurantes com volume relevante de pedidos acabam migrando para os planos intermediários ou superiores — pagando 23% a 30% — para não desaparecer da home do app. É um trade-off cruel: paga menos comissão e vende menos, ou paga comissão alta e vê a margem evaporar.

Para entender a dimensão do problema, vale olhar a estrutura de custos típica de um restaurante. Segundo dados do Sebrae e da Abrasel, o CMV (custo da mercadoria vendida) consome de 28% a 35% da receita. A folha de pagamento, outros 30% a 35%. Some aluguel, impostos, embalagens, energia — e o que sobra é a tal margem de 6% a 8%. Quando 27% do valor de cada pedido vai embora antes mesmo de chegar à conta da loja, o que era margem vira prejuízo disfarçado.

A simulação: 30% versus 15% no caixa do lojista

Os números abaixo mostram o que está em jogo para três perfis de faturamento via delivery:

Faturamento mensal no delivery Comissão a 30% Comissão a 15% Recuperação mensal Recuperação anual
R$ 20.000 R$ 6.000 R$ 3.000 R$ 3.000 R$ 36.000
R$ 50.000 R$ 15.000 R$ 7.500 R$ 7.500 R$ 90.000
R$ 100.000 R$ 30.000 R$ 15.000 R$ 15.000 R$ 180.000

Um restaurante de porte médio (R$ 50 mil/mês no delivery) recuperaria R$ 90 mil por ano apenas com a redução da comissão. Para colocar em perspectiva: considerando uma margem líquida de 7% sobre receita bruta, esse mesmo restaurante hoje entrega ao aplicativo o equivalente a mais de 4 vezes sua margem operacional. Com 15%, entregaria pouco mais de 2 vezes — ainda alto, mas viável.

Não surpreende que, em pesquisa da Abrasel com 2.000 estabelecimentos, 70% dos restaurantes tenham afirmado que as taxas atuais de delivery comprometem a viabilidade do negócio. Em um país onde 50% dos restaurantes fecham antes de completar dois anos, segundo o Sebrae, o peso da comissão deixa de ser uma linha de despesa: vira fator de mortalidade.

O que outros países já decidiram

O Brasil chega tarde a um debate que outras economias já resolveram. Nova York limitou permanentemente as comissões de delivery a 15% desde 2022, segundo Reuters. Chicago e São Francisco fizeram o mesmo, tornando definitivos os tetos adotados durante a pandemia, conforme reportagem do The Guardian. A França regulamentou o setor em 2022 com proteções a entregadores e regras de transparência para os estabelecimentos.

A justificativa, nesses casos, é parecida com a da Abrasel: setor de food service é capilar, gera empregos em larga escala (6 milhões no Brasil, segundo a entidade) e opera em margens estreitas demais para absorver comissões que, em outras categorias de marketplace, beirariam o abusivo. A regulação não inviabiliza as plataformas — apenas redistribui o valor gerado de forma menos assimétrica.

O que isso significa para o seu negócio

Esperar o PL passar não é estratégia. A tramitação no Congresso é lenta, há pressão contrária das plataformas dominantes, e mesmo se aprovado, há fase de regulamentação e adaptação. Enquanto isso, três movimentos práticos podem ser feitos hoje:

  1. Audite sua comissão real. Muito lojista olha o percentual nominal do plano e ignora taxas adicionais, promoções patrocinadas e descontos algorítmicos. Pegue um mês de extrato e calcule: receita bruta dos pedidos versus repasse efetivo. O percentual real costuma ser maior do que o contratado.

  2. Diversifique seus canais de venda. Depender de uma única plataforma com 80% de market share não é só caro — é fragilidade estrutural. Pedidos via WhatsApp, site próprio, e marketplaces alternativos com comissões menores (ou zero) reduzem a dependência e o custo médio por pedido.

  3. Reveja a precificação no delivery. Se você pratica o mesmo preço do salão no app, está absorvendo a comissão na sua margem. Calcule um delta que compense — sem deslocar o cliente. A maior parte dos consumidores entende que delivery custa mais que retirada no balcão.

Conclusão

A regulação das plataformas de delivery vai chegar — a questão é quando, e em quais termos. Mas o seu fluxo de caixa não pode esperar a votação. Cada mês de comissão a 27% ou 30% é margem que não volta, é capital de giro que não fica na operação. O movimento certo é começar a reduzir essa dependência agora, com canais que devolvem ao lojista o controle sobre quanto ele paga para vender.

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