iFood Ads vale a pena? A conta que ninguém faz quando soma comissão e publicidade

O iFood Ads bateu recorde em 2024: 180% de crescimento e conversão 3,2x maior que o tráfego orgânico. A pergunta que nenhum press release responde é simples: depois de pagar comissão E ainda investir em anúncios, sobra algo no caixa do lojista?

Os números oficiais do iFood Ads em 2024

Os dados divulgados pelo iFood em 28/02/2025 são os seguintes:

  • 180% de crescimento na receita de publicidade em relação a 2023
  • 30 mil anunciantes ativos na plataforma
  • Conversão 3,2x maior dos anúncios em relação ao tráfego orgânico
  • Mais de 2 bilhões de impressões geradas no ano
  • Média de 11 impressões por usuário ativo na plataforma

Em paralelo, o iFood mantém sua posição dominante no mercado brasileiro: pesquisa da consultoria Croma, publicada pela Exame em março de 2024, apontou que o app concentrava 84% do market share de delivery no país. Com mais de 400 mil restaurantes cadastrados e milhões de pedidos diários, é o ambiente onde o consumidor brasileiro decide o que vai jantar.

A lógica do iFood Ads, vista de fora, é coerente: se 84% das pessoas estão dentro do app, faz sentido pagar para aparecer na frente delas. O ponto de fricção não está na lógica. Está na matemática.

A conta que o release não mostra

Para entender o ROI real do iFood Ads, é preciso colocar todos os custos da operação na mesma planilha. E aqui é onde a coisa aperta.

A taxa de comissão do iFood, segundo levantamentos publicados pela imprensa especializada em 2024, varia entre 12% e 27% sobre o valor de cada pedido, dependendo do plano e da modalidade de entrega contratada. No plano "Entrega iFood" — em que o app cuida da logística —, a comissão típica fica entre 23% e 27%, segundo dados compilados pela Saipos e pela Delivery Direto. Some a isso a taxa de pagamento online (em torno de 3,2%) e o piso já beira 30% do faturamento apenas em taxas estruturais.

Agora entra a verba de iFood Ads. Não há valor mínimo público obrigatório, mas relatos do setor e materiais de educação para restaurantes sugerem que campanhas com efeito relevante começam em 5% a 8% do faturamento bruto mensal — patamar consistente com a média de retail media no varejo digital brasileiro.

A soma fica assim:

  • Comissão iFood (Entrega iFood): 27%
  • Taxa de pagamento online: 3,2%
  • Verba de iFood Ads (cenário moderado): 5% a 8%
  • Total: 35,2% a 38,2% do faturamento

E aqui chega o golpe: segundo a Abrasel (Associação Brasileira de Bares e Restaurantes), a margem de lucro líquida média do setor de food service no Brasil fica entre 5% e 10%. Em delivery, levantamentos da Saipos apontam que o intervalo cai para 3% a 9%.

Em outras palavras: a soma de comissão + ads pode consumir um percentual quase quatro vezes maior do que a margem de lucro disponível. O lojista não está investindo no crescimento — está cedendo margem futura para garantir visibilidade hoje.

Por que a conversão 3,2x não conta a história toda

O número da conversão é real. Anúncios convertem mais que tráfego orgânico — isso vale para iFood, Google, Meta, Amazon e qualquer plataforma de retail media. O que o dado não diz é o seguinte: quando 84% do mercado está concentrado em um único app, o tráfego orgânico está, na prática, sob pressão constante. Restaurantes que não anunciam tendem a ser empurrados para baixo no ranking, perdendo posição para competidores que pagam.

Isso cria o que economistas chamam de dilema do prisioneiro: se ninguém anunciasse, todos teriam tráfego orgânico saudável. Como alguns anunciam, todos são forçados a anunciar — e o ganho marginal de cada um se neutraliza, enquanto o custo agregado do mercado sobe.

O resultado prático para o lojista independente é uma corrida de Rainha Vermelha: correr cada vez mais rápido (investir mais em ads) só para ficar no mesmo lugar (manter o volume de pedidos). E cada centavo que entra no orçamento de anúncios sai da margem que sustenta o negócio.

O que isso significa para o seu negócio

Antes de aumentar (ou começar) a verba no iFood Ads, três ações concretas valem mais do que qualquer otimização de campanha:

  1. Faça a conta completa. Some comissão + taxa de pagamento + verba de ads e veja qual percentual do seu faturamento bruto está saindo só para uma plataforma. Se passa de 30%, você está trabalhando para ela, não com ela.
  2. Diversifique canais. Cardápio digital próprio, redes sociais, WhatsApp e marketplaces alternativos com taxa menor são caminhos viáveis. O delivery brasileiro tem 84% de concentração — mas os 16% restantes existem e crescem com lojistas insatisfeitos.
  3. Compare o custo total, não só a comissão. Uma plataforma com 0% de comissão e logística integrada pode caber na sua margem inteira sem precisar de verba extra de ads para sobreviver. Faça a simulação.

Conclusão

O iFood Ads cresceu 180% em 2024 porque funciona — para o iFood. Para o lojista, a conta só fecha quando se ignora o custo total da dependência de uma plataforma única. Investir em ads dentro de um ambiente onde você já paga 30% de comissão é, em última análise, pagar duas vezes pelo mesmo cliente.

A pergunta certa não é "quanto investir no iFood Ads". É "quanto da minha margem ainda é minha".

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