O brasileiro faz mais de 1,3 bilhão de pedidos por ano. O que ele escolhe?
Existe uma pergunta simples que revela muito sobre um povo: o que você pede quando não quer cozinhar?
No Brasil, essa resposta virou dado. O mercado de delivery de alimentos movimenta US$ 9,1 bilhões por ano (Statista, 2024) e cresce em ritmo de dois dígitos desde a pandemia. São mais de 1,3 bilhão de pedidos por ano — número suficiente para alimentar cada brasileiro com uma entrega por semana, o ano inteiro.
Mas por trás desse volume enorme, o que os pedidos realmente revelam? Quais categorias dominam? O que está crescendo? E o gosto do paulistano é igual ao do recifense?
Os dados do iFood Trends Report (2023–2024), da Abrasel, da ABF e de consultorias especializadas em food service respondem tudo isso — e algumas respostas vão te surpreender.
O ranking nacional: do campeão absoluto às categorias emergentes
🥇 1º lugar: Hambúrguer — quatro anos no topo e sem sinal de queda
Não é hype. O hambúrguer é, de forma consistente, a categoria líder em volume no delivery brasileiro há quatro anos consecutivos, representando cerca de 28% de todos os pedidos de refeição nas plataformas digitais (iFood Trends Report, 2023–2024).
O que sustenta esse domínio não é só popularidade — é versatilidade. O hambúrguer cabe em qualquer ticket: de R$ 28 em redes de fast-food a R$ 58 ou mais em hamburguerias artesanais. E é justamente nessa segunda faixa que o mercado está crescendo com mais força.
Hamburguerias artesanais com ticket acima de R$ 70 registraram crescimento de 38% em pedidos entre 2023 e 2024, enquanto o fast-food tradicional cresceu apenas 11% no mesmo período (ABF, 2024). O brasileiro não está pedindo mais hambúrguer — está pedindo um hambúrguer melhor, e está disposto a pagar por isso.
O horário de pico? Sextas e sábados, entre 19h e 22h. Quase um ritual nacional.
🥈 2º lugar: Pizza — tradição que resiste a qualquer tendência
A pizza brasileira é um fenômeno sociológico antes de ser gastronômico.
O Brasil tem o terceiro maior consumo per capita de pizza do mundo e consome cerca de 3 milhões de pizzas por dia (Apubra, 2024). No delivery, a categoria representa aproximadamente 22% do volume total de pedidos — consolidada em segundo lugar há anos.
Os sabores não mentem sobre o gosto do brasileiro: mussarela, calabresa e frango com catupiry respondem juntos por 63% de todos os pedidos de pizza (Galunion, 2023). A criatividade dos cardápios existe, mas o brasileiro médio sabe o que quer.
Um dado cultural impossível de ignorar: o pico de pedidos de pizza acontece nas noites de domingo — fenômeno que não tem paralelo em nenhum outro país do mundo. Pizza de domingo no Brasil é quase uma instituição.
Ticket médio no delivery: entre R$ 55 e R$ 85 para pizzarias tradicionais.
🥉 3º lugar: Culinária japonesa — o maior ticket médio do ranking
Para entender por que o japonês chegou ao pódio, um dado de contexto: o Brasil tem a maior colônia japonesa fora do Japão e mais de 3.000 estabelecimentos de culinária japonesa em funcionamento (JBSA, 2023).
Mas o crescimento no delivery vai além da herança cultural. Os pedidos de culinária japonesa cresceram 34% entre 2021 e 2024 (iFood, 2024) — o crescimento mais consistente entre as categorias consolidadas. Temaki, combinados e hot-roll concentram 71% dos pedidos da categoria.
O dado mais interessante, porém, está no comportamento do consumidor: 73% dos brasileiros que pedem delivery japonês declaram que fazem o pedido para uma ocasião especial ou para dividir com alguém (Opinion Box, 2024). Isso explica o ticket mais alto do ranking — entre R$ 65 e R$ 120 — e também a frequência menor. Japonês no delivery não é rotina. É escolha.
4º lugar: Comida fit e saudável — a categoria que mais cresceu
Em 2020, pedidos de comida saudável representavam 5% do volume total de delivery. Em 2024, chegaram a 11% — com crescimento de 67% em pedidos nos últimos dois anos (iFood Trends, 2024).
Marmitas fit, bowls e saladas proteicas lideram a subcategoria. O ticket médio é um dos mais acessíveis do ranking — entre R$ 28 e R$ 45 — o que combina com o perfil predominante: 52% dos pedidos fit são feitos por mulheres entre 25 e 39 anos (Opinion Box, 2024).
Existe até um padrão temporal documentado: segunda-feira é, consistentemente, o dia de maior índice de pedidos saudáveis — o "efeito segunda-feira", quando a culpa do fim de semana se converte em marmita de frango com legumes.
5º lugar: Marmita e comida brasileira — o volume silencioso
O arroz com feijão, proteína grelhada e salada ainda é o combo mais pedido do Brasil — só que em horários que os outros rankings não capturam com tanta clareza.
A comida caseira e a marmita têm o menor ticket médio do ranking (R$ 18 a R$ 28), mas a maior frequência de pedido e uma concentração fortíssima no horário de almoço em dias úteis — entre 11h e 13h30.
O home office foi um catalisador. O crescimento de pedidos de almoço via delivery aumentou 29% entre 2020 e 2024 (Abrasel, 2024). Quando o escritório foi para casa, o restaurante no quarteirão foi substituído pelo app — e a marmita saiu ganhando.
O Brasil não é um mercado único: o mapa regional dos pedidos
Um erro comum ao ler rankings de delivery é tratar o país como bloco homogêneo. Os dados mostram quatro identidades gastronômicas bem distintas:
Sudeste: hambúrguer e japonês dominam. São Paulo concentra mais de 40% do volume total de pedidos do país. Na capital, a culinária japonesa compete palmo a palmo com a pizza pelo segundo lugar — algo que não acontece em nenhuma outra região.
Sul: a pizza tem participação acima da média nacional, influência direta da colonização italiana. O churrasco delivery — uma categoria que praticamente não existe no restante do país — aparece no top 5 regional no Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.
Nordeste: comida caseira e marmita têm penetração muito superior à média. Fortaleza e Recife registram crescimento acelerado de delivery, mas com tickets médios 25 a 35% abaixo do Sudeste — o que pressiona margens e favorece operações de alto volume.
Centro-Oeste: Brasília puxa números atípicos pela renda per capita elevada. É a capital com maior crescimento em pedidos premium e fit — a categoria saudável cresceu 89% na capital federal entre 2022 e 2024.
O que está chegando: três tendências para acompanhar em 2025
A premiumização do hambúrguer vai continuar. O crescimento está no ticket, não só no volume. Quem souber entregar experiência — ingredientes diferenciados, embalagem, apresentação — vai capturar o cliente que está disposto a pagar mais.
O japonês como categoria de ocasião. Com o maior ticket médio do ranking e um consumidor que pede para compartilhar, a culinária japonesa tem uma dinâmica própria: menos frequência, mais valor por pedido. É uma categoria que recompensa quem investe em qualidade percebida.
O plant-based saindo do nicho. Pedidos de proteína vegetal cresceram 112% entre 2022 e 2024 — ainda representam apenas 2,8% do volume total, mas a projeção é dobrar essa participação até 2027 (iFood Trends, 2024). É pequeno hoje. Não vai ser pequeno por muito tempo.
O que esses dados significam na hora de escolher onde pedir
O ranking revela preferências, mas tem uma camada que os números não mostram diretamente: a experiência de pedir.
Frequência de pedido, fidelidade e satisfação do consumidor têm correlação direta com dois fatores — qualidade do restaurante e condições em que ele opera. Um lojista que trabalha com margens comprimidas por comissões altas inevitavelmente transfere esse custo para o preço ou para a qualidade do que entrega.
Por isso, plataformas como o Trend SuperApp — que conecta consumidores a restaurantes locais sem as taxas abusivas dos grandes marketplaces — mudam a equação para os dois lados: o lojista opera com margem real, o cliente paga um preço mais justo.
O brasileiro quer hambúrguer, pizza, japonês e marmita. Mas o que ele realmente quer é pagar justo, receber rápido e voltar a pedir amanhã.
Conclusão
O delivery brasileiro em 2025 tem um campeão claro (hambúrguer), uma tradição inabalável (pizza), um crescimento consistente (japonês) e a tendência do momento (fit). Mas o que os dados revelam de mais importante não está em nenhuma categoria específica — está no tamanho do apetite do brasileiro por conveniência, variedade e qualidade.
O mercado cresce. O consumidor fica mais exigente. E as escolhas — de onde pedir, o que pedir e por qual plataforma — dizem cada vez mais sobre quem somos à mesa.
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