Como o piloto funciona (e o que o iFood não está contando)
O acordo iFood/Cartken opera num raio de cerca de 2 km a 3 km a partir de restaurantes parceiros nos Jardins. Os robôs andam a 6 km/h, carregam até 15 kg, navegam por calçadas com visão computacional e são supervisionados remotamente. Para o cliente, o pedido é igual: faz pelo app, recebe notificação de que a entrega será por robô.
Até aí, tudo bem documentado. O problema começa quando você procura os números que decidem se isso é bom negócio para o restaurante:
- Custo por entrega cobrado do lojista? Não divulgado.
- Taxa de sucesso (entregas concluídas sem intervenção humana)? Não divulgada.
- Tempo médio de entrega comparado ao motoboy? Não divulgado.
- Quantos restaurantes participam? Não divulgado.
- Mudou alguma coisa na receita desses restaurantes? Não divulgado.
A Cartken, em entrevistas, fala em custo "competitivo com entregadores humanos em escala". O iFood diz que os robôs são "complementares" aos motoboys. Nenhuma das duas frases significa nada concreto para quem está olhando a planilha do fim do mês.
O que dizem os dados de pilotos parecidos no exterior
Como o iFood não abre os números, o caminho é olhar para operações comparáveis em outros mercados — sempre lembrando que contexto muda tudo.
Custo por entrega. A Starship Technologies, que opera há mais tempo e completou 7 milhões de entregas globalmente (dados da empresa, 2023), declara custo de US$ 1 a US$ 2 por entrega em escala. A Deloitte projeta que, com volume, o custo da entrega autônoma pode cair para US$ 1, contra US$ 4 a US$ 8 da entrega humana em mercados desenvolvidos. No Brasil, uma corrida de motoboy em São Paulo custa entre R$ 12 e R$ 20, segundo levantamentos do setor. Se o robô chegar perto disso e o iFood repassar parte da economia, há espaço para taxa menor. Se não repassar, a economia fica com a plataforma.
Taxa de sucesso e tempo. A Starship reporta mais de 99% de sucesso em rotas estabelecidas e tempo médio de 30 minutos — contra 45 a 60 minutos da entrega humana em cidades menores. Um estudo da Universidade de Michigan (2023) registrou 28 minutos do robô contra 34 minutos do humano em distâncias curtas urbanas nos EUA. A ressalva grande: esses dados vêm de campi universitários e subúrbios planejados, não de uma capital latino-americana com calçadas irregulares.
Impacto na venda do restaurante. Aqui o dado fica interessante. O mesmo estudo de Michigan apontou aumento de 15% a 20% nos pedidos dos restaurantes participantes nos primeiros meses — efeito de novidade e marketing. Pesquisa da Cornell (2022) mostrou que pedidos sem gorjeta (caso do robô) têm ticket médio 15% maior, porque o consumidor "compensa" a economia comprando mais. Por outro lado, 23% dos clientes em pilotos americanos relataram problemas em entregas para apartamentos e condomínios — exatamente o tipo de endereço dominante em São Paulo.
Os obstáculos brasileiros que ninguém resolveu
O piloto começou nos Jardins. Não foi escolha aleatória: é um dos poucos bairros da cidade com calçadas largas, conservadas e relativamente planas. Pesquisadores da Unicamp já apontaram que a infraestrutura urbana brasileira representa desafio "substancialmente maior" para robôs autônomos do que cidades dos EUA ou Europa. A Cidade do México testou robôs em 2022 e suspendeu o piloto por vandalismo.
Some a isso a falta de regulamentação. O Brasil não tem legislação específica para robôs de calçada — nem federal, nem municipal em São Paulo. O piloto opera num limbo regulatório que pode mudar a qualquer momento se o CONTRAN publicar diretrizes em 2025, como se espera.
Tradução: o robô funciona hoje num bairro específico, num cenário controlado, sem regra clara. Escalar para a sua loja em Pinheiros, Tatuapé ou Santo Amaro está bem longe de ser realidade imediata.
E os entregadores?
São 1,5 milhão de pessoas trabalhando como entregadores por aplicativo no Brasil, segundo o CETIC.br (2022). Pesquisa da FGV mostra que 30% deles temem automação nos próximos 5 anos. O McKinsey Global Institute projeta que até 45% das atividades de entrega urbana podem ser automatizadas até 2030 — mas com ressalva crucial: o ajuste é gradual e concentrado em rotas curtas, pedidos leves e áreas de alta densidade. Em outras palavras, o motoboy que faz 8 km para entregar uma pizza grande não vai ser substituído tão cedo. O entregador de mochila pequena, em rota de 1,5 km no centro expandido, sim — eventualmente.
O que isso significa para o seu negócio
Três pontos práticos para tirar daqui:
1. Não conte com economia de taxa no curto prazo. Mesmo que o robô seja mais barato para o iFood, não há sinal de que a plataforma vá repassar essa economia para o lojista. Lembre que 67% dos restaurantes já consideram as taxas atuais "muito altas" (Abrasel, 2023), e 38% operam com margem negativa só para manter visibilidade. Robô novo, mesma equação.
2. Se a sua loja está em área de piloto, a novidade vende. O efeito marketing dos primeiros meses é real — entre 15% e 20% de aumento em pedidos, segundo dados internacionais. Aproveitar a comunicação ("seu pedido pode chegar de robô") faz sentido enquanto durar a novidade.
3. Não dependa de uma única plataforma para decidir o futuro da sua entrega. O fato de o iFood — que tem 80% do mercado — não abrir números sobre o piloto mostra quem controla a informação. Quanto mais canais próprios você tiver (site, WhatsApp, marketplaces alternativos), menos refém você fica de uma decisão que não passa por você.
Conclusão
Robô de entrega em São Paulo já é realidade — mas é uma realidade de bairro específico, sem regulamentação, sem números abertos e sem garantia de benefício para o restaurante. A tecnologia vai avançar; a pergunta é quem vai capturar o valor dela. Lojistas que diversificam canais e reduzem dependência de uma única plataforma estarão em posição melhor para escolher, em vez de aceitar.
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