A comissão que aparece e a que não aparece
A tabela pública de planos das três principais plataformas no Brasil é razoavelmente conhecida. O iFood opera com comissão de cerca de 12% no plano básico (com entregador próprio do lojista) e entre 27% e 32% no plano com entrega da própria plataforma. A Rappi pratica algo entre 25% e 35%, e o Uber Eats trabalha próximo a 30% no plano padrão, com negociação para parceiros de maior volume.
O ponto cego está no que vem depois. A taxa de processamento de pagamento embutida no fluxo da plataforma fica entre 2,5% e 3,5% sobre o valor do pedido, segundo contratos públicos e dados da ABECS. Em alguns planos ela está incluída na comissão; em outros é cobrada separadamente. Some-se a isso o custo de embalagem para delivery — entre R$ 2,50 e R$ 7,00 por pedido, segundo a ABRE e o Sebrae —, e os cupons das campanhas "Gaste X, Ganhe Y", em que o lojista subsidia parte ou todo o desconto oferecido ao consumidor.
A conta para um ticket médio de R$ 60,00 fica assim:
- Comissão da plataforma (28%): R$ 16,80
- Taxa de pagamento (3%): R$ 1,80
- Embalagem delivery-grade: R$ 3,50
- Custo extra de preparo e checagem: R$ 2,40
- Cupom subsidiado (média): R$ 3,00
Total do custo de canal: R$ 27,50, ou 45,8% do ticket. Sobram R$ 32,50 para cobrir CMV (custo da mercadoria vendida), mão de obra, contas fixas e lucro. Para uma operação que trabalha com 30% de CMV, o lucro líquido por pedido fica abaixo de R$ 14,00 — e isso na melhor das hipóteses.
Por que 62% dos lojistas não fazem essa conta
Um diagnóstico do Sebrae sobre gestão financeira no food service mostrou que 62% dos lojistas não calculam o custo real por pedido no canal delivery. A maioria replica o preço do salão no aplicativo, na expectativa de que o volume compense. O problema é que a matemática do delivery é estruturalmente diferente: no salão, a despesa variável por pedido fica em torno de 5% a 8% (basicamente a taxa do cartão e parte da embalagem); no delivery via plataforma, esse mesmo bloco salta para 30% a 45%.
Quem não ajusta o cardápio especificamente para o canal está, na prática, financiando a operação da plataforma com a margem do salão. O Sebrae estima que o reajuste necessário para neutralizar o impacto da comissão no canal delivery fica entre 15% e 25% sobre o preço do salão, dependendo do mix de produtos e do ticket médio.
Como reduzir a pressão sem sair das plataformas
A boa notícia é que existem ações concretas, aplicáveis à sua operação ainda este mês, que reduzem o custo de canal sem exigir migração imediata. As mais eficientes são:
1. Precificação diferenciada por canal. Crie um cardápio específico para o aplicativo, com preços que absorvam a comissão. Não é truque: é unit economics básico. A cláusula de exclusividade de preço, que travava esse movimento, está sob escrutínio do Cade desde 2021 e tem perdido força contratual.
2. Engenharia de cardápio para o digital. Pratos com margem alta (massas, lanches, sobremesas) devem ter destaque visual e combos no app. Pratos de margem apertada (proteínas nobres, executivos completos) podem ficar fora do canal ou em versão adaptada. Cardápio enxuto, com 12 a 18 itens, performa melhor que vitrine completa.
3. Embalagem como variável de custo, não de estética. Trocar embalagem personalizada por embalagem genérica de qualidade pode economizar R$ 2 a R$ 4 por pedido. Em uma loja com 600 pedidos por mês, são R$ 1.200 a R$ 2.400 mensais de volta ao caixa.
4. Pix como forma de pagamento em canal direto. Para o volume que você consegue migrar para WhatsApp ou site próprio, o Pix elimina taxa de pagamento. Segundo o Banco Central, o Pix já representa 22% dos pagamentos em plataformas próprias de lojistas no delivery — taxa zero, repasse imediato.
5. Multicanal sem abandono. A estratégia mais sólida não é sair do iFood, é diversificar. Lojistas que migram 30% do volume para canais próprios ou alternativos economizam, em média, R$ 1.400 a R$ 1.700 por mês em uma operação de 300 pedidos com ticket de R$ 55,00.
O que isso significa para o seu negócio
Três movimentos práticos que você pode iniciar ainda este mês:
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Audite uma semana de pedidos. Pegue cada pedido, subtraia comissão, taxa de pagamento, embalagem e cupons. Calcule o que sobrou. Esse número, dividido pelo seu CMV, mostra se o canal está dando lucro ou consumindo a margem do salão.
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Ajuste o cardápio do app em até 20%. Comece pelos itens de maior giro. Reajuste, monitore conversão por 15 dias e ajuste novamente. A queda de pedidos costuma ser muito menor do que o lojista imagina — o consumidor já espera preço diferente entre canais.
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Abra um canal direto agora, mesmo simples. WhatsApp Business com catálogo, link de pagamento via Pix, divulgação na embalagem dos pedidos do iFood. Em 90 dias, 10% a 15% do seu volume já tende a migrar para o canal de menor custo.
Conclusão
A comissão do delivery em 2026 não é o vilão isolado que muito artigo pinta. O vilão real é a soma silenciosa de comissão, taxa de pagamento, embalagem e cupons que consome até 45% do ticket sem que o lojista perceba. Quem faz a conta completa e ajusta cardápio, embalagem e canal recupera margem rapidamente — sem precisar abrir mão da visibilidade que as grandes plataformas oferecem.
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