30% dos restaurantes vão deixar o iFood em 2026: o que vem depois

Uma pesquisa da ABRASEL mostra que quase um terço dos restaurantes brasileiros planeja sair da dependência exclusiva de marketplaces até 2026. O movimento abre uma janela rara de barganha para lojistas — e exige um plano prático de transição.

O que a pesquisa da ABRASEL realmente mostra

A intenção de 30% dos restaurantes de migrar parte da operação para tecnologia própria — site, WhatsApp Business com cardápio digital, app próprio ou plataformas alternativas — não nasce de preferência tecnológica. Nasce de matemática.

O mercado de food delivery no Brasil movimentou R$ 56,8 bilhões em 2023, com crescimento de cerca de 14% sobre o ano anterior, segundo Statista e Euromonitor. O Brasil é o terceiro maior mercado de delivery do planeta em volume de pedidos, atrás apenas de China e Estados Unidos (McKinsey, 2023). E 63% dos brasileiros conectados pediram comida por aplicativo nos últimos três meses, segundo a pesquisa de Hábitos de Consumo Digital 2024 da CNDL/SPC Brasil.

Esse crescimento, porém, aconteceu sobre uma estrutura altamente concentrada. Estimativas de mercado apontam que o iFood detém entre 80% e 83% do market share de pedidos no Brasil. E a comissão média cobrada por pedido fica entre 23% e 27% para restaurantes em planos sem benefício premium, com a faixa total indo de 12% a 30% conforme negociação. Em números diretos: para cada R$ 100 vendidos pela plataforma, sobram entre R$ 73 e R$ 88 antes de impostos, embalagem, motoboy e custo do produto.

Num setor cuja margem líquida média gira entre 5% e 15% (ABRASEL, 2024), essa estrutura simplesmente não fecha mais para muitos operadores. Os 30% que planejam tecnologia própria são, na prática, restaurantes que fizeram a conta.

A janela que abriu em 2025 e fecha em 2026

A migração não vai acontecer no vácuo. Ela coincide com a entrada de novos players num intervalo curto: Mercado Livre lançou o Mercado Delivery em 2023 e já operava em mais de 300 cidades até meados de 2024; a Shopee testa modelos integrados de food delivery com base em sua operação asiática; e plataformas como o Trend SuperApp consolidam um modelo sem comissão por pedido. Euromonitor estima que superapps podem capturar até 15% do volume de delivery no Brasil até 2027.

Para o lojista, isso significa uma condição rara: pela primeira vez desde 2015, plataformas precisam de restaurantes mais do que restaurantes precisam de plataformas. E plataformas que precisam de supply oferecem condições melhores — comissão zero, repasse antecipado, ferramentas gratuitas, suporte dedicado. É um ciclo de janela. Dura enquanto os novos entrantes estão em fase de aquisição.

Restaurantes que diversificarem canais agora entram em 2027 com custo de distribuição estruturalmente menor do que os que esperarem a poeira baixar. Quem espera, paga.

Canal próprio funciona — e os dados confirmam

A boa notícia para quem está repensando a estratégia: diversificar dá resultado mensurável. Segundo o Sebrae, 41% dos restaurantes que adotaram canais próprios — WhatsApp Business somado a cardápio digital — relataram aumento de margem líquida em até 12 meses. O ticket médio em canal próprio tende a ser 18% a 22% maior do que em marketplaces, segundo operadores entrevistados pela ABRASEL em 2024. A diferença é atribuída à ausência de comparação instantânea de preços e à fidelização mais alta de quem pede direto.

O WhatsApp já é usado para pedidos por 74% dos restaurantes independentes que operam delivery sem depender exclusivamente de apps (Meta/Sebrae, 2023). A infraestrutura existe. O comportamento do consumidor existe. O que faltava era massa crítica de lojistas dispostos a fazer a transição — e é exatamente isso que a pesquisa da ABRASEL captura.

Comparativo: Brasil x referências globais

Indicador Brasil (2024) Referência global
Market share do líder ~82% (iFood) China: ~67% / EUA: ~67%
Comissão média por pedido 23%–27% EUA: 15%–30% / Europa: 15%–25%
Restaurantes com canal próprio ~35%–40% (estimativa) EUA: ~55% (pós-pandemia)
Ticket médio canal próprio vs. marketplace +18%–22% EUA: +15%–20% (Toast, 2023)

Fontes: Statista, McKinsey, Euromonitor, Toast Restaurant Trends Report 2023, ABRASEL.

A leitura do quadro é direta: o Brasil tem mais concentração de plataforma e menos diversificação de canal próprio do que mercados maduros. Há espaço técnico para crescer — e é nesse espaço que os 30% da ABRASEL vão se mover.

O que isso significa para o seu negócio

Se você opera um restaurante com delivery, a pesquisa da ABRASEL não é uma curiosidade de mercado. É um sinal sobre o que seus concorrentes estão planejando para os próximos 18 meses. Três ações concretas para entrar nessa onda sem perder receita no caminho:

  1. Mapeie sua dependência real. Calcule qual percentual do seu faturamento vem de uma única plataforma. Se for mais de 70%, você está exposto a qualquer mudança de algoritmo, reajuste de comissão ou nova categoria concorrente lançada pela própria plataforma.

  2. Comece pequeno, mas comece agora. Não é preciso sair do iFood para diversificar. WhatsApp Business com cardápio digital, presença em superapps sem comissão como o Trend e um site simples de pedidos já criam uma base de clientes que é efetivamente sua — não alugada.

  3. Faça a conta de migração de volume. Para cada R$ 20 mil que você desloca de um marketplace de comissão 23% para um canal próprio ou plataforma sem comissão, sobram aproximadamente R$ 4.600 a mais na sua margem bruta mensal. Esse cálculo cabe num papel.

Conclusão

Os 30% da ABRASEL não são uma previsão — são uma intenção declarada por quem está na ponta. A janela de diversificação está aberta agora porque novos entrantes precisam de supply, e isso não vai durar. Quem entende esse momento como gestão de risco, e não como aposta, sai de 2026 com uma estrutura de custo que os concorrentes vão demorar anos para alcançar.

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