Delivery supera restaurante físico no gasto das famílias de classe média — e o que isso muda para o seu negócio

A virada estrutural no comportamento alimentar do brasileiro de classe média já está acontecendo. Os dados mostram para onde o dinheiro está indo — e por que o lojista que ignora o canal digital corre o risco de ficar para trás em 2026.

A virada em números: de hábito ocasional a gasto estrutural

A trajetória da alimentação fora do domicílio no Brasil é uma curva ascendente sem interrupção. Segundo o IBGE, em 2002-2003 a Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) apontava que 24,1% do gasto alimentar das famílias acontecia fora de casa. Em 2008-2009, esse percentual subiu para 31,1%. Em 2017-2018, chegou a 32,8% — e em regiões metropolitanas, já beirava 38%.

O que mudou a partir de 2020 é a fatia dentro dessa fatia. Antes, "alimentação fora do domicílio" era sinônimo de almoço no salão. Hoje, o delivery ocupa um pedaço crescente — e, em famílias de classe média urbana, já é a categoria dominante. A pesquisa da Locomotiva em parceria com o iFood (2022) mostrou que 74% dos brasileiros pediam delivery ao menos uma vez por semana. Em 2023, dados consolidados pela NielsenIQ apontaram crescimento de 12% em volume de pedidos sobre 2022, com a classe C registrando alta de 22% entre 2021 e 2023.

A classe média urbana — famílias com renda entre R$ 2.900 e R$ 7.500/mês, que segundo a FGV representam 54% da população — é o motor dessa mudança. Pesquisa Ipsos 2023 mostrou que 68% desse segmento usa apps de delivery ao menos uma vez por semana, com ticket médio de R$ 42 na classe C e R$ 65-80 na classe B.

O que a POF 2024-2025 deve confirmar

A nova POF do IBGE, com coleta iniciada em julho de 2024 e primeiros resultados previstos para 2026, deve oficializar uma tendência que o mercado já antecipa: alimentação fora do domicílio chegando à faixa de 35-38% do gasto alimentar total, com o delivery respondendo pela maior parte do crescimento na última década.

Há um detalhe importante para o lojista. O IPCA mostra que, em 2023, a inflação da alimentação no domicílio foi de 3,9%, enquanto a alimentação fora do domicílio subiu 6,0%. Mesmo com preço relativo mais alto, a demanda por delivery continuou crescendo. Isso indica algo que o Banco Central já vinha observando: o gasto com alimentação fora do lar, em famílias de classe média, é mais resistente a variações de renda do que se imaginava. Ou seja, não é luxo descartável. Virou rotina.

O tamanho do mercado e a projeção para 2026

O setor de bares e restaurantes faturou R$ 270 bilhões em 2024, segundo a Abrasel. Dentro disso, o delivery representa entre 25% e 40% do faturamento dos estabelecimentos que operam no canal. O GMV das plataformas de delivery no Brasil foi estimado em R$ 65 bilhões em 2023.

A projeção da Statista é de que o mercado brasileiro de food delivery atinja US$ 17,2 bilhões em 2026, com CAGR de 10,6% entre 2023 e 2026 — e penetração digital no food service saindo de 28% (2023) para 38% (2026). O número de usuários ativos deve passar dos 45 milhões em 2024 para 62,6 milhões em 2028. Em outras palavras: mais 17 milhões de consumidores entrando no canal digital nos próximos quatro anos.

E ainda há espaço enorme do lado da oferta. O SEBRAE estima que 43% dos micro e pequenos restaurantes brasileiros ainda não operam delivery de forma estruturada. Dos que operam, apenas 31% têm canal próprio — o restante depende exclusivamente de apps de terceiros.

A dor que está travando a digitalização

Se o consumidor está indo para o digital e o mercado vai crescer 10% ao ano, por que tantos restaurantes ainda resistem? A resposta aparece em pesquisa atrás de pesquisa: o custo das plataformas.

As comissões praticadas pelas grandes plataformas variam entre 12% e 30%, dependendo do plano e da categoria. A Abrasel registra que, somando comissão e marketing interno nas plataformas, o custo total pode chegar a 35% do valor do pedido. Para um ticket médio de R$ 45, são R$ 10 a R$ 15 por pedido só em comissão. Resultado: margem líquida do restaurante fica entre 5% e 15% depois de todos os custos.

Some-se a isso o prazo de repasse, que segundo a própria Abrasel varia entre 14 e 30 dias na maioria das plataformas. Para um pequeno restaurante que precisa pagar fornecedor toda semana e folha todo mês, esse descasamento de caixa é, muitas vezes, mais sufocante do que a comissão em si.

O que isso significa para o seu negócio

Três movimentos práticos que o lojista pode (e deve) fazer agora:

  1. Não fique fora do canal digital. Os dados do SEBRAE mostram que restaurantes com presença digital têm sobrevivência 2,3x maior em três anos. Se você ainda não opera delivery de forma estruturada, está na metade do mercado que vai sofrer mais com a próxima onda de consolidação.

  2. Diversifique plataformas e reduza dependência. Os 23% de restaurantes digitalizados que adotam estratégia híbrida (canal próprio + plataformas alternativas) relatam ticket médio 8% a 15% maior e margem mais saudável. Estar em uma única plataforma com comissão de 27% é o caminho mais rápido para apertar a margem.

  3. Avalie o impacto real da comissão e do prazo de repasse no seu caixa. Faça a conta: quanto sobra do seu ticket médio depois de comissão, taxa de serviço, embalagem e custo de aquisição interno na plataforma? Se a resposta é menos de 10%, é hora de buscar alternativas.

Conclusão

A virada já aconteceu. A classe média brasileira escolheu o delivery — e essa escolha vai pesar mais a cada ano no faturamento do food service. O lojista que entender isso agora, e estruturar a operação digital com canais que não esmaguem a margem, vai capturar o crescimento de 10% ao ano que o mercado vai entregar até 2026. Quem continuar refém de uma única plataforma com 27% de comissão e repasse em 30 dias, vai ver o mercado crescer no extrato dos outros.

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