Lei dos Entregadores: quanto vai custar para o seu restaurante em 2026?

A Lei 14.717/24 já está em vigor e o repasse para o seu caixa começou. Veja a conta real por pedido, o que cada plataforma está cobrando e quais ações tomar antes que o aumento de custo coma sua margem.

O que diz a Lei 14.717/24 (e o que ela não diz)

A regulamentação reconhece os entregadores de aplicativo como trabalhadores com direito a salário mínimo, INSS, FGTS (8%), seguro contra acidentes e remuneração baseada em km rodado. Os pisos definidos são de R$ 1,04 por km para motos e R$ 0,60 por km para bicicletas, além de hora de espera remunerada e adicional noturno.

O ponto que poucos lojistas perceberam: a lei se aplica diretamente às plataformas de intermediação — iFood, Rappi, Uber Eats e similares. Restaurantes com motoboys próprios (CLT ou autônomos) continuam regidos pelas regras anteriores. Ou seja, se você opera com frota própria, o impacto direto é menor. Se você depende de logística terceirizada via marketplace, o custo já está sendo repassado.

A lei entrou em vigor em 2025, mas o repasse efetivo se intensifica em 2026, quando as plataformas precisam absorver INSS patronal, FGTS retroativo e ajustes de piso. É aí que o custo por pedido cobrado do lojista tende a subir mais uma vez.

A conta real: quanto custa um entregador regulamentado

Vamos aos números, usando os parâmetros da própria lei e do salário mínimo de 2025 (R$ 1.518,00):

  • Salário base mensal: R$ 1.518,00
  • Com FGTS (8%): R$ 1.639,44
  • Com INSS patronal (~20%): R$ 1.821,60
  • Com seguro de acidente e encargos (~5%): R$ 1.897,68
  • Custo total mensal por entregador: ~R$ 1.900,00

Agora a divisão por pedidos, considerando produtividade variável (fonte: análise do blog Meu Garçom):

  • Entregador fazendo 10 entregas/dia (220 entregas/mês): R$ 8,64 por pedido
  • Entregador fazendo 15 entregas/dia: R$ 5,76 por pedido
  • Entregador fazendo 20 entregas/dia: R$ 4,32 por pedido

Esses valores mostram por que o iFood anunciou inicialmente R$ 2,00 por pedido e analistas projetam R$ 7,00 como teto realista. As plataformas precisam manter frota disponível nos picos (almoço, jantar, fim de semana), o que significa pagar entregadores em períodos de baixa demanda. Esse custo ocioso entra na conta — e é repassado ao lojista.

O que cada plataforma já fez (e o que ainda vai fazer)

A posição pública das plataformas, segundo levantamento do Tecnoblog:

  • iFood: anunciou repasse de R$ 2,00 por pedido para cobrir os custos da regulamentação. Em nota pública, afirmou que esse valor cobre os custos atuais — mas não cravou que será o teto.
  • Rappi, Uber Eats e 99: ainda não divulgaram valores oficiais, mas indicaram que ajustes na taxa de entrega ou na comissão estão em estudo.
  • Loggi: opera modelo B2B e tende a repassar via reajuste de tabela.

Na prática, o lojista que opera via marketplace está pagando — ou vai pagar em breve — entre R$ 2,00 e R$ 7,00 a mais por pedido. Some isso a uma comissão que já varia de 12% a 30% nas grandes plataformas, e o cenário fica claro: cada pedido entregue via app deixa cada vez menos no seu caixa.

Simulação: o impacto real na sua margem

Considere um restaurante com ticket médio de R$ 60 e 500 pedidos/mês via marketplace:

Cenário Comissão (23%) Taxa de entrega regulamentada Total descontado por pedido Sobra por pedido
Antes da lei R$ 13,80 R$ 0 R$ 13,80 R$ 46,20
Repasse mínimo (R$ 2) R$ 13,80 R$ 2,00 R$ 15,80 R$ 44,20
Repasse projetado (R$ 5) R$ 13,80 R$ 5,00 R$ 18,80 R$ 41,20
Repasse teto (R$ 7) R$ 13,80 R$ 7,00 R$ 20,80 R$ 39,20

No cenário mais pesado, você perde R$ 7,00 a cada pedido. Em 500 pedidos/mês, são R$ 3.500 a menos no caixa. Em 12 meses, R$ 42 mil. Para muitos restaurantes de pequeno e médio porte, esse valor é a diferença entre operar com lucro ou no vermelho.

O que o lojista pode fazer agora

Três ações concretas para proteger sua margem antes que o repasse cheio entre em vigor:

1. Reprecificar seu cardápio no marketplace, não na loja física. Crie uma tabela separada para os apps com preços ajustados para cobrir comissão + nova taxa de entrega. A maioria dos consumidores já entende que delivery via app custa mais caro — e quem reclama de R$ 3 a mais no prato continua comprando.

2. Reduzir dependência de uma única plataforma. Se 80% do seu delivery vem de um único marketplace, você está refém da política de repasse dele. Diversificar entre canais — incluindo canais próprios e marketplaces alternativos com modelo de custo diferente — dilui o risco.

3. Calcular margem por canal, não margem geral. Muitos lojistas olham só o faturamento total. Comece a separar: quanto cada pedido via iFood deixa? Quanto deixa um pedido via WhatsApp próprio? Quanto deixa um marketplace sem comissão? Sem esse cálculo, você não consegue decidir onde investir esforço de venda.

O que isso significa para o seu negócio

A Lei dos Entregadores é necessária do ponto de vista social, mas o custo está sendo redistribuído — e a maior parte está chegando no lojista. Em 2026, esse repasse tende a se intensificar, especialmente nas plataformas dominantes que precisam absorver encargos retroativos e manter operação em escala.

Três coisas para fazer ainda este mês:

  • Verifique no extrato da sua plataforma principal qual é a taxa de entrega atual cobrada por pedido e compare com seis meses atrás
  • Calcule sua margem líquida por canal (não o faturamento bruto)
  • Explore alternativas de canal de venda que não dependam de marketplaces com comissão alta — antes que a próxima rodada de repasse aconteça

Conclusão

A regulamentação é definitiva e o repasse já começou. Esperar para reagir significa absorver perdas que poderiam ter sido evitadas com decisão antecipada. O lojista que entender a nova estrutura de custos agora, e diversificar seus canais de venda antes do segundo semestre de 2026, vai chegar lá com margem preservada. Quem deixar para depois vai ter que escolher entre repassar tudo ao consumidor (e perder volume) ou comer o custo no caixa.

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