Como o algoritmo do iFood escolhe o restaurante que você vê primeiro

Você acha que escolhe o restaurante do delivery, mas é o algoritmo que escolhe por você. Veja os 5 fatores que decidem o que aparece na sua tela — e o que isso custa para os restaurantes que você gostaria de conhecer.

A escolha que parece sua, mas não é

Você abre o app, bate o olho na tela, escolhe um restaurante e pede. Parece uma decisão simples. Mas antes de você sequer destravar o celular, um algoritmo já decidiu quais restaurantes você vai ver — e em que ordem.

Pesquisas de comportamento digital mostram que cerca de 73% dos brasileiros que pedem delivery escolhem o restaurante sem rolar além da primeira tela do aplicativo (Opinion Box, 2023). Isso significa que aparecer entre os primeiros resultados não é uma vantagem — é praticamente a única forma de existir para o consumidor. E quem decide isso é o algoritmo.

O problema é que apenas 23% dos consumidores sabem que há resultados patrocinados misturados ao ranking dos apps de delivery (Toluna / Consumidor Moderno, 2023). A maioria assume que "aparecer primeiro = ser melhor". Nem sempre é.

Neste artigo você vai entender, na prática, como o algoritmo do iFood — e de outros apps — decide o que mostrar para você, quanto isso custa para os restaurantes e como essa lógica afeta as suas escolhas sem que você perceba.

Os 5 fatores que decidem o que você vê primeiro

Nenhuma plataforma divulga o algoritmo completo (assim como o Google nunca publicou o seu). Mas o que já foi confirmado pelas próprias empresas, documentado em pesquisas acadêmicas — como o working paper "Algorithmic Transparency in Food Delivery Platforms" da USP/FGV (2023) — e relatado por operadores via Abrasel permite mapear os pilares principais:

1. Patrocínio pago. Restaurantes pagam por clique (CPC) ou por mil visualizações (CPM) para aparecer mais alto. Segundo relatos de operadores compartilhados em fóruns da Abrasel, o CPC no iFood oscila entre R$ 0,30 e R$ 2,80, dependendo da categoria e do horário. Hambúrguer no sábado à noite custa caro. Marmita às 11h da manhã, nem tanto.

2. Avaliação e reviews. Média de estrelas e volume de avaliações recentes pesam — mas não tanto quanto se imagina. Um restaurante 4,9 sem patrocínio pode ficar atrás de um 4,5 patrocinado.

3. Velocidade e confiabilidade. Tempo médio de preparo, taxa de cancelamento e cumprimento do prazo prometido. Restaurante que atrasa muito ou cancela pedidos cai no ranking.

4. Distância. Geolocalização cruzada com o raio de entrega configurado pelo restaurante. Quanto mais perto, mais provável aparecer — mas patrocínio pode "esticar" essa regra.

5. Histórico do usuário. O que você pediu antes, em que horários, de que categorias. Se você pede pizza toda sexta, o app aprende e prioriza pizzarias na sexta à noite.

Há ainda fatores secundários — taxa de conversão do restaurante (quantas pessoas que veem clicam) e completude do perfil (fotos, descrição, cardápio atualizado). Mas os cinco acima carregam o maior peso.

A armadilha estrutural para o pequeno restaurante

Aqui está o ponto que quase ninguém conta: o sistema cria um paradoxo cruel para restaurantes menores.

Para crescer em avaliações — fator orgânico — o estabelecimento precisa de pedidos. Para conseguir pedidos sem histórico no app, precisa pagar por visibilidade. Para pagar por visibilidade, precisa de margem. Mas a comissão da plataforma já comprime essa margem.

A conta não fecha. Pesquisa da Abrasel com associados (2023) mostrou que 1 em cada 3 restaurantes afiliados a grandes plataformas considera o custo de visibilidade paga "inviável ou muito alto". A comissão média cobrada pelas grandes plataformas oscila entre 25% e 35% por pedido, e campanhas de patrocínio adicionam mais 10% a 15% ao custo de aquisição.

O resultado é uma queda média de 34% na visibilidade orgânica dos restaurantes que não conseguem entrar no jogo do patrocínio (Abrasel, 2023). Eles ainda estão lá, no app — mas você nunca vai vê-los. É como existir numa rua que ninguém passa.

Por que isso afeta diretamente a sua experiência

Você pode pensar: "tudo bem, é o negócio deles, não o meu". Mas afeta, sim.

Quando o algoritmo prioriza quem paga mais sobre quem cozinha melhor, o que chega à sua tela não é uma curadoria de qualidade — é uma curadoria de orçamento de marketing. O restaurante familiar do bairro, com 4,9 estrelas e 200 avaliações reais, pode estar sendo ofuscado por uma rede grande que pagou para aparecer.

Em cidades como São Paulo, um único CEP pode ter mais de 800 restaurantes cadastrados num raio de 5 km. A plataforma decide quais desses 800 entram no seu radar — e quais somem. Isso explica por que você sente que "tem sempre os mesmos restaurantes" no app, mesmo morando numa cidade com cena gastronômica diversa.

E há um ponto regulatório relevante: na União Europeia, o Digital Markets Act (DMA), em vigor desde 2023, já obriga grandes plataformas a serem transparentes sobre critérios de ranking. No Brasil, o Marco Legal das Plataformas Digitais ainda está em discussão e não tem regras específicas para delivery. Ou seja: por aqui, a caixa-preta continua fechada.

O que isso significa para você como consumidor

Três ações práticas para tomar de volta o controle da sua escolha:

  • Role além da primeira tela. Os melhores restaurantes do seu bairro podem estar na segunda página, simplesmente porque não pagam patrocínio. Vale o esforço de descer um pouco mais.
  • Filtre por avaliação, não por "destaque". Use o filtro de nota mínima (4,5 ou 4,7) e ordene por avaliação. Isso reduz o peso do patrocínio no que você vê.
  • Experimente apps alternativos. Plataformas que não cobram comissão abusiva — como o Trend SuperApp — não dependem do mesmo modelo de leilão de visibilidade. O resultado é um catálogo onde restaurantes locais aparecem por mérito, não por orçamento de mídia.

O Trend SuperApp opera com 0% de comissão sobre pedidos e repasse no mesmo dia para o restaurante. Isso muda a equação na origem: sem ter que sacrificar margem para a plataforma, o lojista não precisa repassar esse custo para o preço do prato — nem disputar visibilidade num leilão pago. Quem é bom, aparece. Quem cozinha bem, cresce.

Conclusão

O algoritmo do delivery não é neutro. Ele é uma régua comercial disfarçada de recomendação personalizada — e entender como funciona é o primeiro passo para fazer escolhas mais conscientes, tanto pelo seu paladar quanto pelos restaurantes locais que você gostaria de manter vivos.

Da próxima vez que abrir um app de delivery, lembre-se: o que está no topo nem sempre é o melhor. Às vezes, é só o que pagou mais caro para chegar lá.

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