Quick commerce chega ao interior do Brasil: por que o lojista local precisa agir em 2024

A entrega em até 30 minutos deixou de ser exclusividade das capitais. Ribeirão Preto, Uberlândia, Caxias do Sul e dezenas de outras cidades médias já viram as grandes plataformas instalarem dark stores no último ano. O lojista local tem uma janela curta para se posicionar antes que o jogo seja decidido.

O que é quick commerce e por que ele muda o jogo no interior

Quick commerce é o modelo de entrega ultrarrápida — entre 15 e 30 minutos — que depende de três pilares: estoque pré-posicionado próximo do consumidor (as chamadas dark stores), raio de entrega curto (2 a 5 km) e catálogo enxuto de produtos de alto giro.

No mundo, o setor deve movimentar US$ 71,85 bilhões em 2025, com crescimento anual de 24,1%, segundo a Statista. No Brasil, o quick commerce movimentou R$ 2,5 bilhões em 2023 e a projeção é de alta de 40% até 2025, de acordo com o E-commerce Brasil.

A diferença para o lojista do interior é a seguinte: enquanto nas capitais o modelo compete com dezenas de dark stores por bairro, nas cidades médias o espaço ainda está em disputa. Um relatório da McKinsey mostra que mercados onde o quick commerce chegou às cidades secundárias apresentam taxas de crescimento 40 a 60% maiores do que nas cidades primárias — justamente porque a oferta ainda não saturou a demanda.

O mapa da expansão: onde o jogo está acontecendo

Com base em levantamentos do iFood Market, Rappi, Exame e Novarejo, essas são as cidades do interior que já têm quick commerce rodando ou em instalação:

São Paulo (interior):

  • Já operando: Ribeirão Preto, Campinas, São José do Rio Preto, Sorocaba, Piracicaba
  • Em expansão para 2024-2025: Indaiatuba, São Carlos, Araraquara, Americana, Bauru

Minas Gerais:

  • Já operando: Uberlândia, Juiz de Fora, Belo Horizonte (região metropolitana ampliada)
  • Em expansão: Montes Claros, Uberaba, Divinópolis

Rio Grande do Sul:

  • Já operando ou em instalação: Caxias do Sul, Pelotas, Santa Maria, Passo Fundo

Ribeirão Preto, segundo dados do Novarejo, lidera o delivery no interior paulista com ticket médio 12% acima da média nacional. Uberlândia registrou crescimento de 67% no volume de pedidos por delivery em 2023, segundo a Câmara de Dirigentes Lojistas local. Caxias do Sul teve alta de 45% no segundo semestre de 2024, impulsionada pela digitalização pós-enchentes, segundo o GauchaZH.

Se sua loja está em uma dessas cidades — ou em um município vizinho de porte semelhante — você está dentro da zona de disputa.

O que o consumidor do interior quer (e está pagando mais por isso)

A pesquisa Consumidor Conectado 2024, da CNDL/SPC Brasil, mostra que 73% dos brasileiros já fizeram pelo menos uma compra por aplicativo de delivery. E 41% afirmam que a rapidez na entrega é o principal fator na escolha da plataforma — acima de preço e variedade.

Mais revelador ainda é um dado da NielsenIQ: 58% dos consumidores brasileiros aceitariam pagar mais pela entrega se o prazo caísse para menos de 30 minutos. Apenas 31% priorizam frete grátis quando a entrega demora mais de uma hora. Ou seja, no quick commerce, velocidade vale mais do que desconto.

Para o lojista do interior, isso significa que não é preciso derrubar preço para competir. É preciso estar presente, estar perto e entregar rápido.

A armadilha da comissão alta nas grandes plataformas

Aqui mora o ponto delicado. Entrar no quick commerce via grandes plataformas resolve o problema da velocidade, mas cria outro: a conta. Segundo análise do Novarejo, pequenos lojistas que operam quick commerce exclusivamente por plataformas de terceiros gastam entre 25% e 32% da receita em comissões. É uma mordida que, somada ao custo de insumos e mão de obra, deixa muito pouco para o caixa.

A Abrasel aponta que lojistas com operação própria ou em plataformas de menor comissão têm margem líquida até 18 pontos percentuais maior do que os que dependem só do iFood ou Rappi. E um estudo da consultoria Giro Digital, publicado pela Exame, mostra que lojistas com delivery próprio retêm 100% dos dados do cliente, têm ticket médio 22% maior e taxa de recompra 35% superior.

A conclusão prática: estar nas grandes plataformas pode ser necessário para visibilidade, mas depender só delas é insustentável no médio prazo.

O que isso significa para o seu negócio

Se sua loja está em uma cidade do interior de SP, MG ou RS que já apareceu no radar das plataformas (ou que vai aparecer nos próximos 12 meses), três ações concretas valem a pena agora:

  1. Mapeie seu raio real de entrega. Para quick commerce, o alvo são 2 a 5 km. Identifique quantos clientes potenciais estão nesse raio e quais produtos têm giro rápido suficiente para justificar estoque pré-posicionado.

  2. Monte um catálogo enxuto e focado. Dark stores pequenas no Brasil operam com investimento inicial de R$ 15 mil a R$ 80 mil, segundo o E-commerce Brasil. Não precisa ser uma operação nova — pode ser uma adaptação do que você já tem, com foco nos 20 itens que giram mais rápido.

  3. Não aposte tudo em uma plataforma só. O custo de depender de uma comissão de 30% é alto demais para o modelo de quick commerce funcionar. Combine presença nos grandes marketplaces com canais próprios ou plataformas de comissão mais baixa.

Conclusão

O quick commerce não é mais um fenômeno de capital. Ele está sendo instalado agora nas cidades médias do Brasil, e o lojista local tem uma vantagem que as grandes redes não têm: ele conhece o bairro, conhece o cliente e já tem a estrutura mínima para operar. O que falta é posicionamento no canal digital certo — e uma estrutura de comissão que não devore a margem.

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