O que muda em outubro: a nova tabela de comissões
Historicamente, o iFood cobra entre 12% e 27% sobre o valor do pedido, com variação definida pelo plano contratado (Básico, Entrega ou Entrega + Destaque). A partir de outubro, a lógica muda: as faixas passam a ser definidas pelo volume mensal de pedidos do estabelecimento.
| Faixa de pedidos/mês | Comissão estimada | Perfil típico |
|---|---|---|
| Até 100 pedidos | ~27% | Micro / iniciante |
| 101 a 300 pedidos | ~23% | Pequeno estabelecimento |
| 301 a 600 pedidos | ~19% | Médio porte |
| 601 a 1.000 pedidos | ~15% | Médio-grande |
| Acima de 1.000 pedidos | ~12% | Grandes redes / franquias |
O detalhe que a tabela não conta sozinha: segundo o Sebrae (2023), 98,5% dos estabelecimentos do setor de alimentação no Brasil são micro e pequenas empresas. Ou seja, a esmagadora maioria dos lojistas brasileiros vai operar nas duas faixas mais caras da tabela — as de 23% e 27%. É esse grupo, estimado em cerca de 70% da base de parceiros, que fica preso na comissão máxima.
Simulação de impacto: quanto isso pesa no bolso
Números soltos não convencem ninguém. Então rodamos três simulações com ticket médio de R$ 45 (referência Neotrust/NielsenIQ, 2024) e custo operacional de 60% sobre o faturamento bruto (média Abrasel/Sebrae para pequenos restaurantes).
Cenário A — Pequeno lojista (80 pedidos/mês)
- Faturamento bruto: R$ 3.600
- Comissão iFood (~27%): –R$ 972
- Faturamento líquido após comissão: R$ 2.628
- Margem real após custos: R$ 396 (11%)
Cenário B — Lojista médio (250 pedidos/mês)
- Faturamento bruto: R$ 11.250
- Comissão iFood (~23%): –R$ 2.587
- Faturamento líquido após comissão: R$ 8.663
- Margem real após custos: R$ 1.688 (15%)
Cenário C — Lojista grande (1.200 pedidos/mês)
- Faturamento bruto: R$ 54.000
- Comissão iFood (~12%): –R$ 6.480
- Faturamento líquido após comissão: R$ 47.520
- Margem real após custos: R$ 14.040 (26%)
O gap entre o pequeno e o grande lojista é de 15 pontos percentuais de margem. Traduzindo: o pequeno lojista tem rentabilidade 57% menor que o grande operando o mesmo modelo de negócio, vendendo pelo mesmo canal, com o mesmo tipo de produto. A diferença é puramente estrutural — é a tabela que decide.
Por que 70% da base fica presa na taxa mais alta
O escalonamento por volume tem uma lógica clara para a plataforma: fidelizar grandes contas e criar incentivo para crescimento dentro do próprio ecossistema. Para o iFood, faz sentido comercial. Para o lojista pequeno, é uma armadilha matemática.
Para sair da faixa de 27% e cair para a de 23%, o restaurante precisa saltar de 100 para 101 pedidos mensais. Parece pouco. Mas para chegar na faixa mais barata — a de 12% — é preciso rodar mais de 1.000 pedidos por mês, o equivalente a aproximadamente 33 pedidos por dia, todos os dias, sem exceção. Isso é operação de rede consolidada, não de bairro.
A Abrasel já alertou em nota pública que comissões acima de 20% inviabilizam economicamente a operação de entrega para estabelecimentos com ticket médio abaixo de R$ 35 — o que inclui a maioria das lanchonetes, marmitarias e restaurantes populares do país. Com a nova tabela, esse grupo passa a operar em prejuízo estrutural sempre que depende exclusivamente da plataforma.
E há um agravante: o iFood detém cerca de 70% do mercado brasileiro de delivery, segundo estimativas do Itaú BBA. Ou seja, o poder de barganha do lojista pequeno é próximo de zero. Sair da plataforma significa, na prática, perder acesso à maior base de consumidores digitais de alimentação do país.
O contexto que ninguém está discutindo
Enquanto isso, o mercado de delivery no Brasil não para de crescer. A ABComm estima o setor em R$ 65 bilhões em 2024, com crescimento de 14,5% no ano anterior. O delivery deixou de ser complemento e virou receita estrutural para 300 mil estabelecimentos brasileiros que operam via plataformas digitais.
O problema é que o Brasil não tem regulação específica sobre comissões de plataformas de delivery. O Projeto de Lei 2.593/2021, que propõe limitar comissões e exigir transparência, segue sem votação definitiva no Congresso. Em Nova York, para comparação, uma lei aprovada em 2021 e mantida em 2023 limita comissões a 20% permanentemente. Aqui, as plataformas ajustam suas tabelas unilateralmente, e o lojista descobre pelo comunicado.
O que isso significa para o seu negócio
Se sua loja está entre os 70% presos na faixa mais cara, três ações concretas fazem sentido agora:
1. Faça a sua conta antes de outubro. Pegue seu volume mensal de pedidos, aplique a comissão da sua faixa e veja quanto do seu faturamento vai virar comissão. Se o número passar de 20%, sua operação de delivery via iFood está no vermelho estrutural — mesmo que o extrato bancário mostre saldo positivo, porque os custos operacionais estão engolindo o resto.
2. Diversifique canais de venda. Depender de uma única plataforma que detém 70% do mercado é risco alto de negócio. WhatsApp, cardápio próprio, marketplaces alternativos com comissão menor ou zero e canais diretos precisam entrar no mix. Cada pedido que sai da plataforma dominante recupera margem.
3. Compare o custo total, não só a comissão. Comissão é a parte visível. Taxa de serviço, taxa de entrega repassada ao lojista, prazo de repasse (D+30 versus D0 muda o fluxo de caixa) e custos com destaque pago também entram na conta. O número real do que a plataforma custa pode estar 5 a 8 pontos acima da comissão declarada.
Conclusão
O novo modelo escalonado do iFood não é ilegal nem imoral — é decisão comercial de uma empresa privada dominante em um mercado sem regulação. Mas para o lojista pequeno, é sinal claro de que a conta está ficando mais cara e o poder de barganha, menor. Quem depende exclusivamente da plataforma para vender está apostando o próprio caixa numa estrutura tarifária que favorece explicitamente quem já é grande.
O Trend SuperApp opera com 0% de comissão por pedido e repasse D0. Para o lojista do Cenário A, isso representa R$ 972 por mês que ficam no caixa — o equivalente a 2,5 salários mínimos. Anualizado, são R$ 11.664 que deixam de ir para a plataforma e voltam para o seu negócio. Cadastre sua loja e comece a vender com 0% de comissão.
