Um mercado que ainda não chegou no teto
O crescimento de 17% em uma base já gigantesca é o dado mais revelador do balanço. Mercados maduros costumam desacelerar quando atingem essa escala — mas o delivery brasileiro segue expandindo em duas frentes ao mesmo tempo: horizontal (novas cidades) e vertical (mais pedidos por usuário ativo).
O contexto ajuda a entender. O mercado brasileiro de food delivery movimentou aproximadamente R$ 62 bilhões em 2024 (Euromonitor / Abrasel, 2024), o que coloca o Brasil como o segundo maior mercado do mundo em volume de pedidos, atrás apenas da China (Statista Global Food Delivery Report, 2024). E o comportamento do consumidor sustenta a curva: 7 em cada 10 brasileiros que pedem online repetiram o hábito pelo menos uma vez por semana em 2024 (CNDL/SPC Brasil, 2024).
Mesmo com a inflação de alimentação fora do domicílio acumulando 8,5% nos últimos 12 meses (IBGE, mai/2025), o volume de pedidos continuou subindo. Isso confirma uma mudança estrutural: o delivery deixou de ser gasto de exceção e virou comportamento recorrente, especialmente nas classes B e C, que hoje respondem por mais de 60% dos pedidos.
O ticket médio de R$ 53 e o que ele diz sobre o seu cardápio
Um ticket médio de R$ 53 é um dado estratégico — e muitas vezes mal interpretado. Ele não significa que o consumidor está procurando o mais barato. Significa que ele está pagando por conveniência.
Isso muda a lógica de precificação. Se o valor médio pago já está nesse patamar, cardápios estruturados abaixo dele estão deixando margem na mesa. A oportunidade está em construir combos, sugestões de acréscimo e produtos de maior valor agregado que acompanhem naturalmente o ticket que o mercado já validou.
Em números: uma loja que hoje trabalha com ticket médio de R$ 38 e consegue subir para R$ 50 aumenta o faturamento em 31% sem precisar conquistar um único cliente novo. É aumento de margem pura, saindo do que já está passando pela porta.
A oportunidade silenciosa: cidades do interior
Aqui está o dado mais subestimado do balanço. O iFood está presente em cerca de 1.700 municípios brasileiros — mas essa presença é profundamente desigual em termos de maturidade de mercado.
Municípios entre 50 mil e 200 mil habitantes concentram 38% da população brasileira, mas representam apenas 14% do GMV total de delivery online (IBGE Censo 2022 + Statista BR, 2024). A penetração de delivery organizado no interior é de 2 a 4 vezes menor do que nas capitais (Abrasel Regional / SEBRAE, 2024). E o crescimento de novos usuários foi 2,3 vezes mais rápido em cidades de 50k a 300k habitantes do que em capitais entre 2023 e 2024 (Prosus, 2024).
Traduzindo: enquanto São Paulo, Rio e Curitiba já são mercados maduros e altamente disputados — com custos de anúncio elevados e concorrência agressiva — cidades como Barretos, Chapecó, Sobral ou Mossoró estão vivendo os primeiros anos de adoção real. Menos concorrência significa três coisas concretas para o lojista: menor custo de aquisição de cliente, maior visibilidade orgânica e chance real de construir liderança de categoria com investimento inicial menor.
O custo real de operar no delivery
Todo esse crescimento tem um contraponto que o lojista sente no fim do mês: quanto sobra depois que o marketplace tira sua parte. A comissão média cobrada pelos grandes marketplaces no Brasil fica entre 12% e 30% por pedido, dependendo do plano e categoria (Abrasel, 2023–2024). Quando se somam comissão, taxa de serviço e anúncios impulsionados, o custo real do canal pode chegar a 27%–35% do ticket (ABF, segmento food, 2024).
Em um pedido de R$ 53, isso equivale a algo entre R$ 14 e R$ 18,50 que saem antes de qualquer custo operacional. E há uma consequência menos visível: restaurantes que dependem exclusivamente de um único marketplace perdem em média 18 a 22 pontos percentuais de margem bruta em comparação a operações que mantêm canal próprio em paralelo (McKinsey, 2023).
O que isso significa para o seu negócio
O balanço do iFood confirma três coisas que vão orientar decisões de delivery em 2026:
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A demanda não é o gargalo. O mercado cresce dois dígitos ao ano sobre uma base já gigante. Quem está com dificuldade de vender não tem problema de mercado — tem problema de canal, precificação ou posicionamento.
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O ticket médio de R$ 53 é uma referência para reprecificar cardápios e combos. Se o seu ticket está muito abaixo disso, provavelmente há espaço para reestruturar a oferta e capturar mais margem por pedido.
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O interior é a próxima fronteira — e ela recompensa quem chega primeiro. Se sua loja está em uma cidade média, o momento de estruturar operação de delivery é agora, antes de a competição se acirrar.
O outro lado do bilhão
Um bilhão de pedidos é a prova de que o comportamento do consumidor mudou de forma definitiva. A pergunta que fica não é se vale a pena estar no delivery — os números respondem sozinhos. A pergunta real é quanto do que você vende continua sendo seu depois que a plataforma tira sua parte.
Em um mercado que cresce 17% ao ano com ticket médio de R$ 53, a diferença entre pagar 25% de comissão e pagar 0% representa R$ 13,25 por pedido. Em escala, essa conta define quais lojas prosperam nos próximos anos — e quais operam apenas para pagar o marketplace.
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