Canal próprio vs. marketplace: quanto o lojista paga por pedido em 2025

A comissão do marketplace é só a ponta do iceberg. Fizemos a conta completa do que sobra no caixa do lojista em cada modelo — e revelamos em quantos pedidos o canal próprio se paga.

Quanto o marketplace realmente cobra em 2025

As comissões públicas dos três maiores marketplaces de delivery no Brasil giram na mesma faixa. O iFood cobra entre 12% e 30% por pedido dependendo do plano contratado — Básico, Entrega ou Entrega Fácil — e da categoria do estabelecimento (dados da Central de Ajuda iFood e Abrasel, 2024). Rappi opera entre 20% e 30% dependendo do vertical e do volume negociado (PEGN, 2024). Uber Eats pratica de 15% a 30% com estrutura similar (Central de Parceiros Uber Eats Brasil, 2024).

O detalhe está no plano com logística inclusa: nele, o marketplace assume o motoboy, mas cobra a comissão cheia (27% a 30%). No plano de entrega própria, a comissão cai para 12% a 15%, mas o lojista assume 100% do custo logístico — motoboy CLT, combustível, encargos.

Segundo o CAGED e o Salário.com.br (2024), um motoboy próprio custa em média R$ 1.800 a R$ 2.800 mensais em regime CLT. Somando encargos de aproximadamente 72%, o custo real chega a R$ 3.096 a R$ 4.816 por mês. Para um restaurante com 150 pedidos mensais, isso significa R$ 20 a R$ 32 por entrega — antes de contar embalagem, combustível extra e manutenção.

O que ninguém coloca na conta: os custos ocultos

Além da comissão e da logística, existem três custos que raramente aparecem nas apresentações comerciais dos marketplaces:

Embalagens para delivery representam entre 3% e 8% do faturamento bruto (Sebrae, Guia de Custos para Delivery, 2023). Para um ticket de R$ 65, são cerca de R$ 4 por pedido em embalagem térmica, sacola, guardanapo e talher descartável.

Cancelamentos ficam entre 8% e 15% dos pedidos em marketplaces, segundo pesquisa da ABR citada pela Abrasel (2023). Cada cancelamento é custo operacional (produção iniciada, embalagem separada) sem receita correspondente.

Perda do dado do cliente. Esse é o custo invisível mais caro. No marketplace, o lojista paga comissão de 27% a cada pedido — inclusive dos clientes recorrentes que descobriu, atendeu bem e fidelizou. Como a base de dados fica com a plataforma, o restaurante paga aquisição para sempre. É um "aluguel eterno" da própria clientela.

Simulação: a conta completa por pedido

Vamos abrir a planilha. Cenário base: ticket médio de R$ 65, CMV de 33% (R$ 21,45 em matéria-prima), operação em São Paulo.

Item de custo Marketplace c/ logística Marketplace c/ entrega própria Canal próprio
Comissão plataforma R$ 17,55 (27%) R$ 8,45 (13%) R$ 0,00
Taxa de entrega Inclusa R$ 10 a R$ 15 R$ 8 a R$ 12
Embalagem R$ 4,00 R$ 4,00 R$ 4,00
Custo de produção (CMV) R$ 21,45 R$ 21,45 R$ 21,45
Custo total R$ 43 a R$ 47 R$ 43,90 a R$ 48,90 R$ 33,45 a R$ 37,45
Margem bruta R$ 18 a R$ 22 R$ 16 a R$ 21 R$ 27,55 a R$ 31,55
Margem % 27,7% a 33,8% 24,8% a 32,5% 42,4% a 48,5%
Acesso ao cliente ❌ ❌ ✅

Simulação elaborada com base em contratos públicos das plataformas, tabelas Sebrae e benchmarks setoriais. Valores variam por praça, volume e negociação individual.

A diferença é de aproximadamente R$ 10 a R$ 12 de margem adicional por pedido no canal próprio. Em uma operação de 600 pedidos/mês, são R$ 6.000 a R$ 7.200 a mais no caixa todo mês — mesmo pagando motoboy e embalagem.

Onde fica o ponto de equilíbrio

O canal próprio tem um custo que o marketplace não tem: o CAC (Custo de Aquisição de Cliente). Enquanto no iFood o lojista "não paga" para aparecer (paga na comissão de cada pedido), no canal próprio é preciso atrair o cliente ativamente.

Segundo benchmarks da RD Station e do Sebrae Marketing Digital (2023-2024), o CAC via canal próprio no delivery fica entre R$ 15 e R$ 60 por novo cliente, dependendo do canal — tráfego pago no Instagram, WhatsApp ou indicação orgânica. Parece caro, mas o LTV (Lifetime Value) de um cliente fidelizado de delivery está entre R$ 420 e R$ 960 por ano (frequência média de 6 a 12 pedidos anuais × ticket de R$ 65, com base em dados NielsenIQ 2024).

Fazendo a matemática: se o canal próprio gera R$ 10 a mais de margem por pedido e o CAC médio é de R$ 30, o investimento se paga entre o 2º e o 4º pedido do mesmo cliente. A partir daí, cada pedido recorrente é margem cheia — sem os 27% que o marketplace continuaria cobrando para sempre.

Por que o cenário se agravou em 2024 e 2025

Dois fatores comprimiram ainda mais a margem do lojista. O salário mínimo subiu para R$ 1.412 em 2024, encarecendo folha e encargos. E o IPCA-Alimentação acumulou alta de 7,69% em 2024 (IBGE, janeiro/2025), pressionando o CMV. Com menos gordura operacional, a comissão de 27% deixa de ser inconveniência e vira ameaça estrutural — especialmente para restaurantes com ticket abaixo de R$ 40, que já operam com margem próxima de zero em marketplace.

A boa notícia é que a infraestrutura para canal próprio amadureceu. O WhatsApp tem 169 milhões de usuários ativos no Brasil (Meta, 2024) — 96% da base de smartphones. Restaurantes que constroem lista própria estão transformando o app em plataforma de vendas sem pagar comissão.

O que isso significa para o seu negócio

Três ações concretas para tomar ainda esta semana:

  1. Calcule seu custo real por pedido no marketplace hoje. Some comissão + embalagem + CMV + cancelamentos (média de 10%). Compare com o ticket médio. Se sua margem líquida está abaixo de 15%, você está trabalhando quase de graça.

  2. Comece a capturar contato do cliente agora. Cada pedido é uma oportunidade: um cartão dentro da embalagem com QR code para o WhatsApp, um cupom de 10% na próxima compra direta. A migração para canal próprio começa pela base de dados.

  3. Não abandone o marketplace, diversifique. A conta mais rentável para a maioria dos lojistas em 2025 é operar 50-60% no marketplace (para descoberta) e 40-50% em canal próprio (para recorrência). É o melhor dos dois mundos — visibilidade da plataforma + margem preservada nos clientes fiéis.

Conclusão

A comissão de 27% do marketplace não é só uma linha na planilha — é o teto da sua margem. Enquanto o único canal de venda for a plataforma, cada cliente novo que você fideliza continua sendo pago para o marketplace. Canal próprio não é ideologia anti-marketplace: é matemática de sobrevivência do lojista em 2025.

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