Comissão do iFood vai a 27%: quanto sobra de verdade para o seu restaurante?

A partir de outubro, restaurantes no plano "Entrega iFood" passam a pagar 27% de comissão. Cruzamos esse número com a margem média real do setor (8,3%) e fizemos as contas — o resultado é mais duro do que parece.

O que muda em outubro (e o que a comunicação oficial não deixa claro)

O iFood anunciou aos parceiros que restaurantes no plano "Entrega iFood" — o que usa a logística da própria plataforma, com motoboy da marca — passarão a pagar 27% de comissão sobre o valor dos pedidos, ante os 23-25% cobrados anteriormente. A justificativa oficial é o investimento em logística e marketing.

Só que 27% não é o custo total. Segundo levantamento da Abrasel e análises da Goomer, o custo real de estar na plataforma inclui:

  • Comissão base: 27% do pedido no plano Entrega iFood
  • Impulsionamento/anúncios: média de 8% do faturamento delivery para restaurantes que buscam visibilidade competitiva (chega a 15% em segmentos disputados)
  • Embalagem específica para delivery: 3% a 7% do valor do pedido em operações de ticket baixo
  • Cancelamentos e chargebacks: impacto médio de 1,8% no faturamento bruto delivery

Somando o mínimo desses itens (27% + 5% de anúncio + 3% de embalagem + 1,8% de perdas), o custo total de operação na plataforma parte de 36,8% do valor do pedido — e pode ultrapassar 45% em restaurantes de ticket médio baixo que investem pesado em impulsionamento.

A conta que ninguém quer fazer: simulação por ticket médio

Aqui está o exercício que separa a percepção da realidade. Usamos como base a margem líquida média do setor apurada pela Abrasel em agosto de 2026: 8,3%. Já cai de 11,2% em 2023 — antes de qualquer reajuste do iFood.

Cenário 1 — Lanchonete/hamburgueria (ticket médio R$ 42)

  • Receita por pedido: R$ 42,00
  • Comissão iFood (27%): R$ 11,34
  • Custo anterior (25%): R$ 10,50
  • Perda adicional por pedido: R$ 0,84
  • Volume médio: 800 pedidos/mês
  • Perda mensal: R$ 672 | Perda anual: R$ 8.064

Parece pouco? É que a margem líquida desse restaurante sobre delivery, em R$ 42 de ticket, é de aproximadamente R$ 3,49 por pedido. Os R$ 0,84 a mais representam 24% de erosão sobre o lucro líquido de cada pedido.

Cenário 2 — Pizzaria (ticket médio R$ 68)

  • Receita por pedido: R$ 68,00
  • Comissão adicional (2 p.p.): R$ 1,36 por pedido
  • Volume médio: 600 pedidos/mês
  • Perda mensal: R$ 816 | Perda anual: R$ 9.792

Cenário 3 — Restaurante japonês/premium (ticket médio R$ 105)

  • Receita por pedido: R$ 105,00
  • Comissão adicional: R$ 2,10 por pedido
  • Volume médio: 450 pedidos/mês
  • Perda mensal: R$ 945 | Perda anual: R$ 11.340

Cenário 4 — Marmitaria/executivo (ticket médio R$ 30)

  • Receita por pedido: R$ 30,00
  • Comissão adicional: R$ 0,60 por pedido
  • Volume médio: 1.200 pedidos/mês
  • Perda mensal: R$ 720 | Perda anual: R$ 8.640

Nesse último caso, o mais sensível, a margem líquida por pedido antes do reajuste era de aproximadamente R$ 2,49. A comissão adicional consome 24% do lucro líquido por pedido. Para dark kitchens desse segmento — com margem média de 6,1% segundo a Abrasel — o cálculo pode virar prejuízo direto em pedidos com CMV mais alto.

Por que renegociar é possível (e a janela é agora)

A dependência é grande: o iFood detém 83% do mercado de delivery no Brasil segundo a Kantar, e 91% dos restaurantes que usam delivery ainda o têm como canal principal (Sebrae, 2025). Mas há espaços de negociação que muitos operadores desconhecem:

  1. Contratos têm janela de renegociação entre agosto e outubro. Se sua renovação está próxima, é hora de acionar seu gerente de conta.
  2. Volume dá poder. Restaurantes com faturamento delivery acima de R$ 50.000/mês costumam conseguir reduções de 2-3 pontos percentuais em troca de comprometimento de volume ou exclusividade.
  3. Redes com mais de 10 unidades conseguem comissões negociadas na faixa de 18-22%, segundo dados divulgados pela Abrasel.
  4. O plano Básico (12%) existe para quem usa entregador próprio. Fazendo a conta: para ticket médio de R$ 50 e raio de até 5 km, o custo de entrega própria fica entre R$ 8 e R$ 14 por pedido — competitivo com os R$ 13,50 embutidos na comissão de 27%.

O que isso significa para o seu negócio

Três ações concretas para as próximas quatro semanas:

1. Faça sua simulação real. Pegue seu ticket médio, volume mensal e margem líquida atual. Calcule quanto os 2 pontos percentuais adicionais representam sobre seu lucro por pedido (não sobre a receita — sobre o lucro). Se o número passar de 20% de erosão, você tem um problema estrutural, não conjuntural.

2. Construa canal direto. Comece agora uma lista de WhatsApp com clientes recorrentes. Use o iFood como canal de aquisição e migre a segunda compra para pedido direto — sem comissão, com repasse imediato. A CNDL aponta que delivery já representa 38% do faturamento médio de restaurantes nas capitais; sua sobrevivência não pode depender de um único canal.

3. Negocie antes do dia 1º. Ligue para seu gerente de conta iFood ainda em setembro. Chegue com dados: volume dos últimos 12 meses, crescimento anual, taxa de conversão dos seus anúncios. Peça revisão de percentual em troca de metas de volume. A pior resposta é "não" — e você sai da conversa sabendo exatamente onde está.

Conclusão

A comissão de 27% não é o fim do delivery no iFood, mas é o fim de operar no piloto automático. A margem média do setor caiu 2,9 pontos percentuais em três anos, e cada novo reajuste de plataforma corrói o que sobra. A saída não é heroica nem revolucionária: é fazer conta, diversificar canais e usar todo o poder de negociação que seu volume permitir.

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