Quanto o iFood realmente cobra (e por que ninguém fala isso claramente)
As taxas do iFood variam conforme o plano contratado. Segundo a página oficial da própria plataforma (parceiros.ifood.com.br/taxas), existem três faixas:
- Plano Básico: 27% de comissão por pedido, sem entrega inclusa
- Plano Entrega: 23% por pedido, com acesso à frota de entregadores
- Plano Exclusividade: 12% a 15% por pedido — mas o restaurante não pode vender em nenhum outro app
Some a isso a taxa de saque (0,5% do valor sacado, mínimo R$ 2,00) e o repasse quinzenal padrão, e o cenário fica mais claro: um restaurante no plano Entrega que fatura R$ 100 mil paga R$ 23 mil em comissão, mais taxas de saque, mais o custo de esperar até 30 dias para receber. É dinheiro que sai do caixa e nunca volta.
O Sebrae, em seu guia sobre delivery próprio, aponta que restaurantes que migram parte do faturamento para canais próprios conseguem uma economia de até 25% em comissões — o que, no exemplo acima, significaria R$ 25 mil por mês de volta no bolso. Só que essa conta está incompleta.
O custo escondido: quanto custa um cliente no canal próprio
Aqui entra o dado que muda tudo. Segundo especialistas ouvidos pelo NeoFeed, o custo de aquisição de cliente (CAC) em canal próprio varia entre R$ 15 e R$ 50 por cliente, dependendo da região e do segmento. Isso inclui investimento em mídia paga, criação de conteúdo, ferramentas de automação, e o tempo da equipe para gerenciar tudo.
Quando você vende pelo iFood, esse custo está embutido na comissão — o app já tem milhões de usuários abrindo o feed com fome. Quando você vende pelo seu WhatsApp ou pelo seu site, o cliente precisa saber que você existe, decidir pedir de você, e lembrar de voltar. Isso não é grátis.
A conta que importa é esta: se o seu ticket médio é R$ 50 e você paga 23% de comissão ao iFood, o app leva R$ 11,50 por pedido. Se você adquire um cliente no canal próprio por R$ 30 e ele faz um único pedido, você "perdeu" R$ 18,50 em relação ao iFood. Mas se ele faz 5 pedidos ao longo de 6 meses, você economiza R$ 27,50 por pedido a partir da segunda compra. A conta do canal próprio só fecha com recorrência.
A resposta do iFood: exclusividade em troca de taxa menor
Diante do movimento de fuga, o iFood contra-atacou. A plataforma passou a oferecer taxas reduzidas — de 12% a 15% — para restaurantes que aceitam operar em regime de exclusividade. É metade do que cobra no plano Básico, mas exige um compromisso pesado: nada de WhatsApp, nada de Instagram vendendo direto, nada de site próprio recebendo pedidos.
Para um lojista que ainda não construiu base de clientes fiéis, a oferta é tentadora. Para quem já tem 40% das vendas fora dos apps, é uma armadilha: você troca a construção do seu ativo (base de clientes própria) por um alívio temporário na margem — e continua alugando visibilidade de uma plataforma que pode mudar as regras a qualquer momento.
Quando o canal próprio vale a pena (e quando não vale)
Com base nos dados cruzados de Sebrae, NeoFeed e Abrasel, é possível traçar um quadro claro de quando a migração faz sentido:
Vale a pena quando:
- Você já tem base de clientes recorrentes (pelo menos 30% das vendas vêm de clientes que voltam)
- Seu ticket médio é acima de R$ 45 — margem para absorver CAC
- Você tem alguém dedicado a marketing e atendimento no WhatsApp
- Sua região tem entregadores acessíveis via Lalamove, Uber Direct ou parcerias locais
- Você opera em bairro/cidade menor, onde o boca a boca funciona
Não vale a pena (ainda) quando:
- Você está começando e ainda não tem 500 clientes recorrentes
- Seu ticket médio é abaixo de R$ 35 — CAC come toda a margem
- Você não tem estrutura para responder pedidos no WhatsApp em minutos
- Sua operação depende de descoberta (clientes que ainda não conhecem sua marca)
O que isso significa para o seu negócio
A leitura correta dos dados não é "saia do iFood agora". É construir gradualmente um canal próprio enquanto ainda opera nos apps, migrando os clientes recorrentes para o WhatsApp ou site, e mantendo os apps como vitrine para novos clientes.
Três ações concretas que você pode tomar esta semana:
- Coloque um QR code na embalagem direcionando para seu WhatsApp com um cupom de 10% na próxima compra direta. É a forma mais barata de migrar cliente já adquirido.
- Calcule seu CAC real — some tudo que gasta em marketing digital nos últimos 3 meses e divida pelo número de clientes novos que pediram direto. Esse é o número que decide se o canal próprio faz sentido para você agora.
- Diversifique antes de depender — nenhum restaurante deveria ter mais de 60% das vendas em uma única plataforma. É risco puro.
Conclusão
O crescimento de 45% em canais próprios de delivery em 2023 não é uma moda passageira — é uma correção de rota de um mercado que percebeu, tarde, que aluguel de audiência não é ativo. Mas migrar sem preparo é trocar 23% de comissão previsível por 30% ou 40% de CAC imprevisível. O caminho inteligente é híbrido: usar os apps como vitrine, o canal próprio como ativo, e escolher parceiros que devolvam autonomia em vez de tirá-la.
Existe uma terceira via: operar em marketplace com 0% de comissão e repasse no mesmo dia. Cadastre sua loja no Trend SuperApp e venda com autonomia sem abrir mão de audiência.
