O que você paga quando paga 23%
O iFood trabalha com três faixas de comissão principais, definidas pelo plano contratado: Básico (cerca de 12%, exigindo entrega própria), Entrega iFood (aproximadamente 23%) e Entrega iFood + Anúncio (em torno de 27%). Restaurantes sem frota própria, que são a maioria absoluta dos parceiros pequenos e médios, operam obrigatoriamente no intervalo de 23% a 27%.
Sobre um ticket médio de R$ 58 (dado do próprio iFood Insights Report 2024), uma comissão de 23% significa R$ 13,34 por pedido indo direto para a plataforma. Multiplique isso pelos 517 pedidos mensais que compõem um faturamento de R$ 30 mil e você tem R$ 6.900 saindo do seu caixa todo mês, apenas na linha "comissão".
Só que essa é a camada visível. Existem outras quatro.
As camadas que ninguém contabiliza
A primeira camada oculta é a embalagem para delivery. Segundo a Associação Brasileira de Embalagens, embalagens descartáveis subiram entre 15% e 22% em 2024, empurradas pela alta do petróleo (matéria-prima do plástico) e da celulose. O custo médio por pedido saiu da faixa de R$ 0,90 a R$ 1,20 e passou para R$ 1,10 a R$ 1,60. Em 517 pedidos, isso representa aproximadamente R$ 750 por mês em embalagem — um item que o restaurante presencial praticamente não tem.
A segunda camada é o subsídio de frete promocional. Para manter competitividade dentro do algoritmo do iFood, cerca de 20% dos pedidos exigem algum tipo de subsídio de entrega. A R$ 5 por pedido subsidiado, são mais R$ 517 mensais saindo do seu bolso para o cliente enxergar "entrega grátis" na tela.
A terceira camada é a inflação alimentar. O IPCA de alimentação fora do domicílio acumulou 5,84% em 2024, e analistas do setor trabalham com projeção de 8% a 9% para o biênio 2025–2026. Sobre um CMV médio de 35%, isso representa aproximadamente R$ 720 mensais de custo adicional só de correção de insumos — sem que você tenha vendido um prato a mais.
A quarta camada é a menos visível de todas: o custo de oportunidade do dado do cliente. Quem pediu, o que pediu, com que frequência, qual o ticket, qual o horário — nada disso pertence ao seu restaurante. Pertence à plataforma. Isso significa que você não consegue reativar cliente, não faz remarketing, não constrói base própria. Cada pedido é uma transação isolada.
A conta fechada
Vamos ver o mês inteiro de um restaurante fictício com faturamento de R$ 30 mil no iFood:
| Camada | Valor mensal |
|---|---|
| Comissão iFood (23%) | R$ 6.900,00 |
| Embalagens (517 × R$ 1,45) | R$ 749,65 |
| Subsídio de frete promocional | R$ 517,00 |
| Impacto inflação sobre CMV | R$ 718,75 |
| Total de custos variáveis da plataforma | R$ 8.885,40 |
| % da receita bruta | 29,6% |
Quase 30% da receita já se foi — e isso é antes de você pagar o CMV base (35%), a mão de obra (25%), aluguel, energia, gás e o próprio pró-labore. A conta simplesmente não fecha para quem não tem escala ou ticket médio muito acima da média.
O comparativo que muda a conta
Agora, o mesmo restaurante operando por canal próprio via WhatsApp com cardápio digital:
| Indicador | iFood (plano padrão) | Canal próprio |
|---|---|---|
| Comissão por pedido | 23%–27% | 0% |
| Custo de implantação | Sem custo de entrada | A partir de R$ 200/mês |
| Repasse financeiro | D+30 | D0 (Pix) |
| Propriedade dos dados | Da plataforma | Do restaurante |
| Margem líquida estimada | 2%–5% | 6,5%–9% |
| Dependência algorítmica | Alta | Nula |
O ganho de margem líquida ao migrar para canal próprio, mantendo o mesmo mix de produtos, gira em torno de 31%, segundo benchmarks de redes que operam modelo híbrido (plataforma para aquisição, canal próprio para retenção).
Por que quase ninguém sai
Se a matemática é tão desfavorável, por que 78% dos restaurantes brasileiros seguem exclusivos em plataformas? Duas razões estruturais.
A primeira é concentração de mercado. O iFood detém aproximadamente 80% do mercado de delivery no Brasil e tem uma base cadastrada estimada em 60 milhões de usuários. Sair da plataforma parece equivalente a desaparecer.
A segunda é falta de infraestrutura própria. Segundo o Sebrae, 68% dos restaurantes em plataformas admitem não conseguir precificar corretamente porque não conseguem enxergar todas as camadas de custo. Se você não vê o custo real, também não vê o benefício real de migrar.
Nos Estados Unidos, cidades como Nova York, São Francisco e Chicago já estabeleceram teto de 15% de comissão por lei. No Brasil, o PL 2.784/2022 propõe regulação semelhante, mas segue sem votação definitiva. Enquanto a regulação não chega, a saída é operacional.
O que isso significa para o seu negócio
Três ações concretas que você pode tomar ainda este mês:
1. Faça a conta completa do seu delivery. Não olhe só a linha da comissão no extrato. Some embalagem, subsídio de frete, impacto de inflação sobre CMV e custo de oportunidade do dado. Coloque tudo em uma planilha. O número real vai assustar — e é ele que precisa entrar na sua precificação.
2. Comece um canal próprio em paralelo, não em substituição. Ninguém está sugerindo sair do iFood da noite para o dia. A estratégia inteligente é usar a plataforma para aquisição de cliente novo e migrar a base recorrente para canal próprio via WhatsApp. Com investimento a partir de R$ 200 mensais em uma solução SaaS, o payback ocorre no primeiro mês para qualquer restaurante que já fature acima de R$ 10 mil.
3. Recupere a propriedade dos dados. Toda vez que um cliente pede pelo seu canal próprio, você registra o contato, o histórico e o padrão de consumo. Isso significa que você pode reativar esse cliente sem pagar comissão nunca mais. É ativo, não despesa.
Conclusão
A comissão de 23% do iFood não é o problema. O problema é que ela é só uma linha de um total que passa dos 29% de custo variável — e que essa conta segue crescendo à medida que embalagem e insumos sobem. Sair completamente da plataforma pode não ser viável hoje. Mas operar sem canal próprio, em 2026, é escolher voluntariamente a margem menor.
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