O que a decisão significa na prática
O CADE identificou o iFood como agente com "posição dominante com risco de fechamento de mercado" — linguagem do próprio documento oficial (Ato de Concentração 08700.004172/2021-78). Com aproximadamente 80% do market share de delivery por aplicativo no Brasil, a empresa opera em uma zona cinzenta entre plataforma e monopólio de fato.
A proibição de exclusividade não é um detalhe jurídico. Ela significa que nenhum restaurante pode ser obrigado, contratualmente ou por incentivos condicionados, a operar apenas no iFood. Você pode manter presença no marketplace, abrir canal próprio, entrar em plataformas alternativas — e o iFood não pode retaliar formalmente por isso.
O contexto internacional vai na mesma direção. Na União Europeia, o Digital Markets Act (Regulamento UE 2022/1925) proibiu explicitamente cláusulas de exclusividade de plataformas dominantes. Nos EUA, DoorDash e Uber Eats firmaram acordos com o Departamento de Justiça em 2023 revisando essas práticas. O Brasil está seguindo o mesmo caminho regulatório, e a janela para diversificar está aberta.
O impacto real na margem: a conta que ninguém faz
O setor de bares e restaurantes brasileiro trabalha, em média, com margem líquida de 5% a 10% (Abrasel, Relatório Setorial 2023). Custos operacionais consomem entre 55% e 65% da receita bruta — antes de qualquer comissão de plataforma.
Quando você adiciona uma comissão de 27% do iFood (plano Premium) sobre um pedido de R$ 60:
| Item | Valor | % do pedido |
|---|---|---|
| Ticket médio | R$ 60,00 | 100% |
| Custo dos insumos (35%) | R$ 21,00 | 35% |
| Margem bruta | R$ 39,00 | 65% |
| Comissão iFood (27%) | R$ 16,20 | 27% |
| Margem após comissão | R$ 22,80 | 38% |
Sobre esses R$ 22,80 restantes ainda incidem aluguel, folha, embalagem, impostos e o próprio custo de entrega quando não usa o "iFood Entrega". Não é raro que o pedido feche neutro ou negativo — o restaurante trabalha para pagar a plataforma.
O contraponto está no canal próprio. Globalmente, dados da Incisiv + Paytronix (Digital Commerce Restaurant Report 2023) mostram que operações com canais diretos reportam margens 12% a 18% superiores às exclusivas de marketplace. No Brasil, apenas 23% dos restaurantes operam algum canal próprio estruturado, segundo levantamentos da Abrasel. A oportunidade está aberta — e é grande.
Por que o "delivery próprio" não é a resposta completa
Aqui é onde muita gente erra. A conversa sobre sair do iFood costuma virar um discurso de "monte seu app e seja livre". Na prática, canal próprio resolve a equação financeira, mas cria outra: de onde vem o cliente novo?
O iFood cobra caro porque entrega três coisas ao lojista: infraestrutura de pedido, logística e — o mais valioso — audiência. Um site próprio ou WhatsApp estruturado só funciona bem para a base de clientes que você já conquistou. Para atrair novos, é você quem paga o custo de aquisição em anúncios, panfletagem digital, parcerias locais.
Por isso, a estratégia inteligente pós-decisão judicial não é abandonar o iFood da noite para o dia. É quebrar a dependência exclusiva operando em múltiplos canais simultâneos:
- Manter o iFood como canal de aquisição de novos clientes
- Migrar a base recorrente para canal próprio ou plataforma sem comissão
- Reduzir gradualmente o percentual de pedidos que passa pelo canal caro
O objetivo é inverter a proporção. Restaurantes que operam bem esse mix costumam chegar em 40% de pedidos pelo iFood e 60% em canais próprios ou plataformas alternativas. É nesse ponto que a margem líquida volta a fazer sentido.
O que isso significa para o seu negócio
Três ações concretas para começar ainda esta semana:
1. Refaça a conta do seu ticket médio. Pegue os últimos 30 dias de pedidos do iFood, calcule quanto ficou de comissão + taxa de serviço + frete e compare com sua margem bruta. Se o percentual passa de 30% da margem, você está subsidiando a plataforma.
2. Ative um canal próprio, mesmo que simples. WhatsApp Business com catálogo, cardápio digital com QR Code na embalagem e um sistema de pedido direto já cobrem a base recorrente. Não precisa de app próprio no dia um.
3. Diversifique para plataformas sem comissão. O Trend SuperApp opera com 0% de comissão e repasse D0 — o dinheiro do pedido cai na sua conta no mesmo dia, não em 30. Para o fluxo de caixa de um restaurante, isso muda o jogo tanto quanto a economia de comissão.
Conclusão
A decisão judicial contra a exclusividade do iFood não resolve o problema estrutural de dependência do delivery no Brasil, mas abre a porta legal para você agir sem risco de retaliação contratual. O restaurante que sair do iFood sem estratégia perde volume. O que fica só no iFood perde margem. O caminho é o meio: diversificar canais, proteger a base recorrente e recuperar o controle da relação com o cliente.
Cadastre sua loja no Trend SuperApp e comece a operar com 0% de comissão e repasse no mesmo dia. Sua margem agradece — e sua estratégia de longo prazo, também.
